Por que um jovem turco é enviado a Berlim para estudar… sabão? Em Madona em casaco de pele, Sabahattin Ali escolhe um detalhe aparentemente banal – a indústria de sabões perfumados – para lançar seu protagonista, Raif Efêndi, no coração da modernidade europeia.
Pode parecer um campo de estudo um tanto quanto inusitado, mas a produção em larga escala de produtos como o sabão está intimamente ligada à indústria química alemã, fruto da industrialização acelerada que transformou o país após sua unificação, em 1871, e sintoma das transformações radicais operadas pela nova fase do capitalismo no início do século XX.
Ambientado durante o entreguerras, na Turquia e na Alemanha, Madona em casaco de pele nos permite entrever o turbulento contexto político de duas estruturas político-civilizatórias que se transformavam em um ritmo inédito, caminhando a passos largos em direção à autodestruição.
Os últimos suspiros “do homem doente da Europa”: o fim do Império Otomano
O final do século XIX e o início do XX foram momentos críticos para o Império Otomano. Os russos avançavam através do Cáucaso em busca das águas quentes do Mediterrâneo, levando à Guerra Russo-Otomana de 1877, vencida por São Petersburgo.
Diante da derrota, o governo otomano decide buscar assistência militar alemã, o que culmina no Acordo de Cooperação Militar entre os dois países, em 1882. A aliança entre otomanos e alemães era estratégica; ambos tinham como principais rivais os impérios francês e britânico. Como diz o ditado, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O acordo incluía o envio de conselheiros militares de Berlim, a compra de armamentos e a reorganização do exército otomano de acordo com o modelo germânico, além do envio de jovens oficiais militares otomanos para estudar no país europeu.
A associação entre os impérios alemão e otomano deve ser compreendida no contexto mais amplo da chamada “Questão do Oriente”, isto é, das questões políticas surgidas a partir da crise de hegemonia da Sublime Porta em relação a seus territórios imperiais. A possibilidade de queda do poder otomano, ativamente instigada por França e Grã-Bretanha, significaria a possibilidade de expansão imperialista europeia em territórios até então marginais nas dinâmicas capitalistas internacionais, implicando a ampliação de mercados, mas também a possibilidade de marcar presença em regiões estratégicas não apenas por sua localização, mas também por sua recém-descoberta riqueza em petróleo, que já se delineava como uma das fontes energéticas mais relevantes do mundo às vésperas da Primeira Guerra Mundial.
Além do apoio militar, a Alemanha ainda levou a cabo projetos de grande envergadura em território otomano. Nos debruçemos sobre a ferrovia Berlim-Bagdá, a título de exemplo; de acordo com o historiador Sean McMeekin, sua construção visava ao rápido deslocamento de tropas na Ásia sem passar por territórios controlados por britânicos, fazendo parte de uma estratégia mais ampla de desestabilização de espaços sob influência britânico-francesa.
Assim, a aliança entre Istambul e Berlim era multifacetada, incluindo acordos militares, estratégicos e comerciais (como o Tratado de Amizade, Comércio e Entrega), além do fornecimento de serviços financeiros. Ambos os impérios buscavam, por meio dessas ligações, fortalecer-se e garantir sua posição em um cenário internacional de acirrada rivalidade multipolar.
A belle époque: delírios de um mundo em ruínas
Imediatamente após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha vivenciava sua curta experiência republicana (a República de Weimar, 1919–1933), marcada pela agitação revolucionária e brutalmente finalizada com a eleição de Adolf Hitler. É essa a sociedade que o trêmulo Raif Efêndi encontra ao desembarcar em Berlim, onde conheceria aquela que mudaria sua vida para sempre: a artista Maria Puder, uma mulher fascinante e independente. O clima de desvairio é capturado no seguinte trecho:
“Depois da meia-noite, o lugar ficou realmente selvagem. Ouviam-se gritos e risadas enquanto a banda tocava uma valsa antiga atrás da outra e os casais giravam pela pista. Ali era possível ver, em toda a sua realidade nua, o júbilo frenético de um país que não estava mais em guerra. E como me entristecia ver aquelas pessoas magras, com os ossos do rosto protuberantes e os olhos brilhantes, que pareciam estar possuídas por uma doença terrível. Aqueles rapazes que se entregavam a uma alegria desmesurada.”
Enquanto isso, o território otomano se esfacelava a olhos nus. Desde o início do século XIX, o império perdia porções vitais de terreno nos Bálcãs, com as guerras de independência da Sérvia (1804) e da Grécia (1821–1832). A agitação nacionalista varreu o espaço imperial de oeste a leste, enquanto as autoridades imperiais e, posteriormente, republicanas respondiam a esses movimentos com políticas abertamente genocidas – notoriamente contra minorias nacionais como os armênios (Massacres Hamidianos, Genocídio Armênio), assírios (Sayfo) e gregos (Genocídio Pôntico).
Após a derrota otomana na Primeira Guerra, seu território é esquartejado entre dezenas de novas entidades políticas, com distintos graus de autonomia e de subjugação às potências vencedoras. De modo a preservar o máximo de território possível, os nacionalistas turcos, sob a liderança de Kemal Atatürk, lançam-se na chamada Guerra de Independência da Turquia (1919–1923), rejeitando o Tratado de Sèvres e criando novas realidades no terreno a serem reconhecidas e concretizadas por meio do Tratado de Lausanne (1923).
Hüzün: melancolia pós-imperial
Antes de mergulharmos em Berlim, na segunda parte de Madona em casaco de pele, somos apresentadas a um Raif Efêndi envelhecido, chefe de uma família pretensiosa, um retrato ácido da sociedade turca pós-independência. É a década de 1940, e estamos em Ancara, a nova capital, construída no coração da Anatólia – portanto, menos vulnerável à Europa do que Istambul.
Tudo contrasta com a desvairada Berlim das décadas anteriores; o que temos diante de nossos olhos é uma cidade que, apesar de elevada ao status de capital, não poderia ser mais provinciana, povoada por pequenos burocratas mesquinhos, pálidas sombras do aparato estatal otomano. Uma sociedade, segundo Orhan Pamuk, mergulhada em hüzün – uma melancolia coletiva oriunda da decadência da Turquia pós-imperial, presa entre o esforço de modernização e a memória de um passado glorioso.
O futuro da jovem república turca não seria mais luminoso do que sua contraparte alemã; palco de inúmeros golpes militares e de crescente polarização, assombrada pelos crimes de um passado não tão distante, a sociedade turca é atravessada por tensões que levariam a sangrentas ditaduras, como ilustrado em Istambul Istambul, de Burhan Sönmez (Tabla, 2021), e pela brutal repressão ao separatismo curdo no sudoeste do país. O próprio Sabahattin Ali, ativo militante socialista, seria vítima dos aparatos de repressão do governo turco; após décadas de luta contra a censura e o autoritarismo, foi assassinado em 1948.
Seu corpo continua sem sepultamento até os dias de hoje.
Fonte:
MCMEEKIN, Sean. O Expresso Berlim-Bagdá: o Império Otomano e a tentativa da Alemanha de conquistar o poder mundial (1898–1918). Globo Livros, 2011.
MINAWI, Mostafa. Losing Istanbul: Arab-Ottoman imperialists and the end of empire. Stanford University Press, 2023.
PAMUK, Orhan. Istanbul: memories and the city. Vintage International, 2003.