Confira a transcrição da conversa entre Khalil Alrez, autor de Uma girafa insone em Damasco, e Safa Jubran, tradutora da obra. O bate-papo, em árabe, aconteceu no dia 17 de julho no YouTube da Tabla, onde está disponível para assistir.

A tradução da conversa foi feita por Jemima Alves.

Assista aqui

SAFA

Olá, Ustadh Khalil. Gostaria de agradecer imensamente por dedicar esse tempo para conversar conosco. Estou muito feliz por ter a oportunidade de encontrá-lo para falar sobre sua trajetória literária e o seu trabalho de ficção, em especial sobre Uma girafa insone em Damasco, cujo título original é O Bairro Russo.

Lançado no ano de 2019, finalista do Prêmio Internacional de Ficção Árabe, do ano de 2020, e que agora ganha uma edição em português: Uma Girafa insone em Damasco.

Ustadh Khalil, eu, sinceramente, quero enfatizar o quanto agradeço por essa oportunidade. Seja muito bem-vindo.

KHALIL ALREZ

Muito obrigada a você.

SAFA JUBRAN

Ustadh Khalil, gostaria de lhe dizer que, desde que li esse romance pela primeira vez, percebi que se tratava de uma obra diferente, singular. Diferente e singular, no mínimo, em relação a tudo que já li na literatura árabe. Seja pelo estilo, pela linguagem ou pelos temas que aborda, pelas personagens, humanas e animais, que convivem quase que em pé de igualdade. Ou mesmo por algumas características que a aproximam de uma literatura do realismo mágico, ou melhor, fantástica. Essa é minha experiência como leitora. Mas como tradutora, vivi cada cena, cada imagem do romance, maravilhada. Como leitora, sou admiradora desse trabalho, como tradutora, agradecida por me acompanhar ao longo dessa tradução. Sei que dei um pouco de trabalho pra você. 

KHALIL ALREZ

Não, não pelo contrário.

SAFA JUBRAN

Pelo contrário?

KHALIL ALREZ

Fiquei muito feliz com suas perguntas, que sempre demostravam o conhecimento e profissionalismo de um tradutor experiente…capaz de captar os fios internos que estruturam a obra. 

SAFA JUBRAN

Obrigada. Bem, por isso, às vezes tenho a impressão de que eu faço como todos os leitores que apresentam uma leitura ou interpretação que nem sempre coincide com a visão do escritor ou com aquilo que ele pretendia dizer através daquele texto. Por isso, gostaria de te perguntar, você como escritor, como vê esse romance e qual é o lugar dele no seu projeto literário. E como gostaria de apresentá-lo ao leitor brasileiro desde a sua perspectiva como escritor. 

KHALIL ALREZ

Antes de tudo, muito obrigado, por me receber. Na verdade, O Bairro Russo, ou Uma girafa insone em Damasco, é um de três romances. Esses romances partilham alguns personagens, e também o mesmo espaço, o Bairro Russo. O terceiro partilha algumas personagens, mas a história se passa em Moscou. Esses três romances tem um mesmo narrador e partilham alguns personagens. Mas ela não é uma trilogia.

Cada romance é uma obra independente, com uma proposta estética própria. Quanto ao Bairro Russo, de modo geral, como se costuma dizer nos jornais, é um bairro fictício nos arredores de Damasco. Na verdade, o Bairro Russo é parte de um espaço ficcional meu, mas não é exatamente imaginário.

SAFA JUBRAN

Entendi.

KHALIL ALREZ

O Bairro Russo é um conjunto de ruas e lugares reais. Entretanto, essas ruas e lugares se encontram em três cidades. Essas três cidades são Raqqa, Alepo e Damasco, cidades onde vivi. O que é ficcional não são as ruas nem os lugares em si, mas a forma como foram agrupados. Reuni, em um espaço ficcional, ruas e lugares que não estão agrupados na realidade. Para quem conhece a Síria e esses três lugares, consegue discernir quando uma personagem está caminhando numa rua de Damasco, e logo em seguida, passa a caminhar numa rua de Alepo… em seguida, ela entra num edifício em Raqqa… no Bairro Russo… que existe sob o pano de fundo da guerra. Tentei, na medida do possível, não assumir uma postura passional com relação ao que estava acontecendo. Eu poderia, de fato, ter sucumbido sob o peso do que sentia como um cidadão sírio em um país em guerra…. entre sírios. É claro que isso não significa que eu fosse indiferente — de maneira nenhuma. Mas não acredito que o romance seja um lugar, pelo menos o meu romance, seja um lugar para registrar meus posicionamentos. O romance é um lugar para que eu escreva uma narrativa, bonita e envolvente. 

E pode ser também dolorosa. Mas, se quiser expressar minhas posições, posso fazer isso num café, num jantar com amigos. O romance é outra coisa. Bem, ela não está isenta de certos posicionamentos, contudo esses posicionamentos não são categóricos. Mas, se insinuam de longe. E isso, no final das contas, é secundário, pois mais importante, para mim, é como eu escrevo essa narrativa.

SAFA JUBRAN

Agora entendi, Ustadh Khalil. Eu não sabia que o romance poderia ser considerado um de três outros romances ou uma trilogia. Mas que cada um deles pode ser lido de forma independente, sim?

KHALIL ALREZ

Apesar de os três terem o mesmo narrador.

SAFA JUBRAN

Também gostei muito que o senhor nos explicou o que é, afinal, o Bairro Russo. Como o senhor disse — e como repetimos aqui — o Bairro Russo não existe, é lugar imaginário. Agora, entendo também que ele faz parte desses três lugares e que, quando se sai de um lugar e entra em outro, como explicou ao falar das ruas. Agora, vamos falar um pouco, Ustadh Khalil, sobre a construção da narrativa — que eu poderia chamar de não tradicional. Não tradicional em que sentido? No sentido de que esse romance não segue a construção clássica que normalmente esperamos encontrar quando lemos um romance: algo que acontece no início, uma tensão que segue, e por fim, o desfecho. Mas o romance [Uma girafa insone em Damasco] se constrói por meio da fragmentação dos acontecimentos. E são apresentados entrecortados, acontecimentos descontínuos. Para mim, são cenas extraordinárias e cada cena, por sua vez, é formada por outras cenas e detalhes ainda menores. Gostaria de saber se esta opção narrativa foi intencional desde o início. E o que essa essa escolha lhe permitiu fazer?

KHALIL ALREZ

Claro. Na verdade, todos os meus romances são construídos a partir de cenas. Cenas sucessivas que, às vezes, parecem independentes. No entanto, há, na verdade, fios que alinhavam uma cena à outra… E cada cena… eu diria, inclusive, que é possível ao leitor ler uma cena de qualquer parte do romance e apreciá-la. Isso se deve, eu acredito, à minha formação. Quando jovem, fui ator de teatro. 

SAFA JUBRAN 

Vamos falar sobre isso daqui a pouquinho…

KHALIL ALREZ

E eu era profundamente interessado pelo teatro. Eu lia muito sobre a história do teatro e suas correntes. Isso porque, naquela época, acreditava que me tornaria um ator de teatro. Dessa forma, essa minha inclinação me levou a Moscou. Lá, tive uma experiência extraordinária: a cada dez dias havia setenta espetáculos novos. Eu podia assistir uns dez deles. Evidentemente, não era possível ter tempo suficiente para ir diariamente ao teatro. Podia ir uma vez por semana, no máximo, duas. Agora, essa possibilidade era impressionante. Você assistia os maiores atores russos. Além disso, quando você tem diante de si essa oportunidade extraordinária, aprende um novo tipo de prazer, que jamais poderia ter experienciado em Damasco, ou quiçá, em outra capital árabe.

Era um privilégio poder assistir a um mesmo texto encenado simultaneamente de maneiras diferentes. Numa única semana, por exemplo, era possível assistir O jardim das cerejeiras de Tchekhov, exibida em três teatros diferentes. Cada peça era uma leitura própria da obra. Quando você ia ao teatro, então, não era para conhecer o enredo da peça — porque eu conhecia o texto de cor de O jardim das cerejeiras. O que me interessava era o prazer de que desfrutava a não ser ali. Como… “o que encontrarei de novo, nessa montagem que a distingue das outras?”. Isso, certamente, me ajudou a consolidar em mim uma sensibilidade para a cena. E os romances, no geral, quando são imóveis, ou seja, quando as personagens estão num lugar delimitado… o que você encontra é uma cena que se assemelha à cena teatral. É o caso, por exemplo, dos moradores do Bairro Russo, no terraço do zoológico. Ou uma cena cinematográfica, quando estão ao ar livre, quando estão nas ruas. Por exemplo, o funeral de Issam. No momento em que caminham para o cemitério, ou a manifestação dos moradores do Bairro Russo, na Praça dos Omíadas.

SAFA JUBRAN

Exatamente, exatamente. Ustadh Khalil, gostaria de falar com o senhor sobre esse assunto, daqui a pouco voltaremos a falar sobre a Rússia, e sua influência sobre o seu romance e sua vida, entre outras coisas. Mas, antes disso, gostaria de perguntar sobre a tradução.

Como sou tradutora e estou conversando com um escritor que também é tradutor, gostaria de me deter nesse ponto. Aproveito para lembrar ao público que nos acompanha — especialmente aqueles que não conhecem Ustadh Khalil aqui no Brasil — que ele é também tradutor de várias obras da literatura russa para o árabe, entre elas uma seleção de contos de Tchekhov.

Ustadh Khalil, o senhor sabe muito bem o que significa ser tradutor. Como se vive o processo da tradução, e seus desafios. Também é curioso que o narrador desse romance é um tradutor. É como se compartilhássemos esse belo fardo que a profissão de tradutor nos impõem.

Gostaria, então, de fazer uma pergunta enquanto tradutora. Quando está escrevendo, o senhor pensa no tradutor? Ou pensa como tradutor?

Não me refiro ao fenômeno que vemos hoje entre escritores árabes, especialmente os novos, que parecem escrever pensando numa futura tradução de suas obras e, por isso, simplificam a linguagem. Não é o caso aqui. No entanto, quando o senhor escreve, pensa no tradutor? No sentido de que em algum momento se pergunta: “Será que ele vai encontrar dificuldades nesse trecho?” E por que pergunto isso? Porque durante a tradução desse romance, enfrentei muitos desafios. Não teremos tempo de falar sobre todos eles, mas um dos principais foi a rapidez e a imprevisibilidade das mudanças entre os tempos narrativos. Em diversos momentos, a narrativa passa do passado ao presente de maneira muito rápida, e às vezes, um mesmo trecho reúne diferentes planos temporais.

Isso exige do tradutor — pelo menos exigiu de mim — atenção contínua para manter o ritmo da narrativa. Lembro-me, inclusive, de um momento em que conversávamos sobre a tradução e o senhor chamou minha atenção para um trecho em que o narrador fala da mãe. E o senhor me disse que, naquela passagem, havia saltos constantes de uma frase para a seguinte, de um tempo verbal para o outro. Podemos dizer que esse belo jogo com a temporalidade é parte do seu projeto literário? Como o senhor acha que ele influencia a leitura? E acredita que ele representa um desafio particular para o tradutor? Estou perguntando para o tradutor.

KHALIL ALREZ

Para mim, no romance, tempo e espaço são instrumentos da narrativa. São ferramentas de construção ficcional. Minha referência nunca é simplesmente a realidade. Na minha obra, tempo e espaço se interseccionam com a realidade, e se afastam dela ao mesmo tempo. Por isso, no meu trabalho, tempo e espaço são muito flexíveis. E isso nunca é de uma perspectiva do espetáculo. Não passo de um tempo para o outro para demonstrar habilidade. Isso tem uma função. 

Esse tratamento do tempo — esse tempo flexível e esse espaço igualmente flexível e mutável — tem esse grau de flexibilidade e razão e cumprem uma função importante na narrativa. Na cena da mãe, por exemplo. Era indispensável recorrer à essa estratégia de escrita. O tempo deveria sofrer essas mudanças rápidas porque a mãe é uma mulher doente e o filho insiste que ela conte a ele sobre o passado dela. Mas ela não confia nas palavras. Ela sente sempre que as palavras não lhe pertencem. Ela não sabe como lidar com elas. Está sempre sentindo como se tomasse emprestadas as palavras dos outros. Por isso, tem medo delas, teme cair nas suas armadilhas. Por causa disso, há tantos vazios, tantos silêncios. O narrador, então, é obrigado a preencher esses vazios a partir dos restos das palavras destroçadas, das expressões de sua face, dos movimentos de suas mãos e da direção de seu olhar. Por isso esse mecanismo era necessário. Em Lenço com morangos, o protagonista deseja intensificar a própria sensação de sacrifício em nome de sua amada, Raya. Para isso, viaja até ela em vários trens ao mesmo tempo. Ela mora em Baku. Ele percorre várias cidades, enquanto está em Moscou. Chega a Baku à meia-noite vindo de Moscou; dez minutos depois, chega novamente em três trens diferentes, vindos de Leningrado, Kalinin e Vilnius. Meia hora mais tarde, chega outra vez, vindo de Yerevan e de outra cidade. E continua chegando a cada meia hora até o amanhecer. Esse jogo com o tempo, essa flexibilidade do tempo e do espaço, era indispensável para gerar esse sentimento e para expressá-lo nesse trecho. Nunca foi para mera exibição.

SAFA JUBRAN

Não, não, eu sei que não é para mera exibição. Ustadh Khalil, gostaria de lhe perguntar, se o senhor tivesse que nos recomendar outro romance seu para traduzirmos, qual escolheria?

Talvez o Lenço com morangos?

KHALIL ALREZ

Talvez o Lenço com morangos. Acho que, a princípio, Lenço com morangos. Nele, o narrador é o mesmo que o de Uma girafa insone em Damasco. 

E Nonna também está presente. A personagem Nonna, protagonista de Uma girafa insone em Damasco também aparece em Lenço com morangos. Ela não é a única, claro. Há outras personagens do livro que também reaparecem nesse romance.

SAFA JUBRAN

Sim.

Sendo assim, gostaria de voltar um pouco à cultura e a literatura russas e a presença que tem nas suas obras. Como dizia há pouco — e como o senhor mesmo mencionou — o senhor não se satisfez em apenas ler a literatura russa, mas também a traduziu e conviveu com ela por um longo tempo. Por isso, o leitor brasileiro, como leitores de outros lugares, percebe que a presença da Rússia nos seus romances ultrapassa a mera referência cultural ou um diálogo intertextual. Podemos dizer que esse retorno constante à Rússia é também uma forma de escrever a saudade por ela? Uma maneira de escrever a saudade por um país onde viveu por tanto tempo e com o qual continuou convivendo mesmo depois de deixá-lo? Ou há outras razões? O senhor já tocou nesse assunto antes, mas gostaria de voltar a isso porque acredito que deve chamar a atenção do leitor brasileiro.

Como essa experiência russa —literária, cultural e também de vida — o influenciou na formação do seu universo ficcional e na sua linguagem narrativa? Eu sei que já falamos um pouco sobre isso, mas gostaria de me deter um pouco mais sobre esse assunto.

KHALIL ALREZ

Bem, se eu não tivesse ido à Rússia não escreveria como escrevo hoje.

SAFA JUBRAN

Certo.

KHALIL ALREZ

A Rússia — sua gente, sua cultura, seus teatros, seus museus, as pessoas comuns que encontrei nas ruas, no trabalho, nos restaurantes, meus vizinhos, meus amigos — eles são parte da minha memória particular. Por isso, quando escrevo sobre eles, ou quando me refiro à Rússia com essa frequência, não estou reivindicando isso. Estou escrevendo minhas memórias.

E a Rússia tornou-se, é claro, parte fundamental da minha formação enquanto pessoa, como escritor e intelectual. Por isso, é natural que estejam tão presentes na minha obra, sobretudo nos meus últimos três romances. Há outros trabalhos em que faço referências à Rússia…

SAFA JUBRAN

Mas estão realmente presentes… 

KHALIL ALREZ

Mas é nesses três últimos romances que sua presença é particularmente intensa.

SAFA JUBRAN

Ustadh Khalil, como falamos há pouco sobre a estrutura do romance ser construída como uma sucessão de cenas e detalhes os detalhes que compõem cada uma delas. É claro, o senhor comentou também que isso tem relação com sua experiência como ator de teatro. Mas o senhor também escreveu para o teatro. 

KHALIL ALREZ

Sim, escrevi uma peça.

SAFA JUBRAN

Uma única peça. Ainda assim, em O Bairro Russo — ou Uma Girafa Insone em Damasco — há a presença do teatro.

KHALIL ALREZ

Em todos os meus trabalhos.

SAFA JUBRAN

Em todos os trabalhos, sim? Interessantíssimo. Gostaria de fazer uma outra pergunta. Tenho uma curiosidade, na verdade todas as minhas perguntas nascem da curiosidade. E estou aproveitando essa oportunidade para fazê-las todas. Dos escritores da literatura mundial, quem o senhor leu e quem mais influenciou a sua formação como escritor?

KHALIL ALREZ

Na verdade, muitos escritores me influenciaram. Na minha opinião, o escritor deve conhecer a história do gênero literário em que escreve. Se sou romancista devo conhecer a história do romance. Preciso entender como o romance se desenvolveu… Como se caracteriza o romance do século XIX, na Rússia, na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos. E o que nos trouxe a metade do século XX, com toda essa riqueza de inovação e modernidade na escrita? É preciso conhecer essas diferenças.

E quando conheço a história do gênero em que escrevo, sei onde apoiar os pés para caminhar. Por isso, devo aprender com todos esses escritores. Eu não crio o romance novamente enquanto escrevo. Sem dúvida, aprendi com os grandes mestres do romance. Entre os russos do século XIX, Dostoiévski, Turguêniev, Garshin, Tchekhov

— Tchekhov, é assim que vocês dizem?

SAFA JUBRAN

Sim, dizemos Tchekhov…

KHALIL ALREZ

Vocês dizem Tchekhov? Andreiev, depois, já no século XX, Nabokov. Entre os franceses, Flaubert, Zola e Proust. Entre os americanos, Hemingway e Fitzgerald. Entre os tchecos, Kundera. Entre os portugueses, Saramago.

SAFA JUBRAN

E entre os árabes?

KHALIL ALREZ

Infelizmente, não posso dizer que minha escrita tenha sido formada a partir da influência de qualquer escritor árabe em particular. Não porque os escritores árabes tenham menos a me oferecer. Absolutamente, não.

O que quero dizer é que foi uma questão do acaso. Quando comecei a me interessar em ler romances, estava no ensino médio, em Raqqa, tinha 16 ou 17 anos. Foi justamente nesse momento que, por acaso, me interessei por ler literatura francesa.

SAFA JUBRAN

Entendi…

KHALIL ALREZ

Depois, em Alepo, já na universidade, dediquei muitos anos à literatura russa. Eu também lia algumas obras árabes, naturalmente, mas me sentia mais inclinado a ler…. já havia me habituado a…

SAFA JUBRAN

Claro, claro. Compreensível…

KHALIL ALREZ

Isso porque descobri que tinha mais prazer na leitura desses escritores…

SAFA JUBRAN

E a literatura latino-americana? O senhor leu os escritores da América Latina?

KHALIL ALREZ

É claro. Como poderia ser um romancista contemporâneo sem ler os romancistas latino-americanos? 

SAFA JUBRAN

O senhor leu literatura brasileira?

KHALIL ALREZ

Mas é claro. Eu li Jorge Amado, li Paulo Coelho… mas, na minha opinião, o escritor brasileiro mais importante que li foi Machado de Assis. Ele tem um romance traduzido ao árabe duas vezes. Por tradutores diferentes. Foi traduzido nos anos 1990 e depois já no século XXI. O romance Dom Casmurro.

E a outra tradução recebeu o nome O senhor recluso. Na verdade, o mais impressionante nesse romance é sua capacidade de competir, em pé de igualdade, com as grandes obras dos escritores contemporâneos. E esse romance foi publicado, se não me engano, no final do século XIX. Isso mesmo, isso mesmo. É uma ironia curiosa, não? É justamente por isso que não me causa constrangimentos dizer que Machado de Assis é dos grandes mestres com quem aprendi.

SAFA JUBRAN

Ustadh Khalil, depois da entrevista vou lhe indicar alguns livros, que o senhor deva gostar, traduzidos do português ao árabe. E depois de lê-los, o senhor, quem sabe, pode me dizer o que achou. Estou pensando especialmente no escritor contemporâneo, de origem libanesa, Milton Hatoum. Eu traduzi um de seus romances, Dois irmãos. Mas tomara que leia a segunda edição e não a primeira.

KHALIL ALREZ

Não, ainda não li. Mas…

SAFA JUBRAN

Não, eu vou enviar para o senhor…

KHALIL ALREZ

Muito obrigado.

SAFA JUBRAN

Já que estamos em época de Copa do Mundo. Vamos falar um pouco de futebol. E o senhor sabe como esse assunto é caro aos brasileiros. Bem, tenho uma pergunta…

O romance abre com uma cena antiga de partida de futebol, ou de arquivos. Essa mesma cena reaparece mais tarde, no final de duas partes do romance A Girafa — se o senhor se lembra — e parte do Issam.

KHALIL ALREZ

Sim…

SAFA JUBRAN

Por que exatamente essa partida? Vamos conversar um pouco, então, sobre futebol e gostaria também de saber se Ustadh Khalil é amante do futebol.

KHALIL ALREZ

Antes disso, gostaria de responder a primeira parte da sua pergunta. Na verdade, há mais de um uso da partida de futebol no romance. Mais de um uso. A primeira aparece logo na abertura. O protagonista está assistindo a uma partida disputada cinquenta anos antes. Ele está profundamente abatido — isso vai ficar claro no segundo capítulo. Issam havia partido para Ghouta, o Bairro Russo à beira do colapso. Quer dizer, o Bairro Russo estava prestes a entrar num confronto aberto com o regime. Um confronto desigual. Eles não queriam lutar, na verdade, não sabiam nem como enfrentar um regime aberto com aviões, tanques e aparato militar. Por isso, no início do romance, o Bairro Russo está à beira do colapso. Ao mesmo tempo chega a notícia de que Issam foi para Ghouta. E que queria fugir. O que se podia fazer? A girafa está diante da televisão. Ele teme que a girafa também veja as notícias e se dê conta das explosões que ocorreram no Bairro Russo. Por isso encontra entre os canais uma partida de futebol para que ela assista. Até que possamos entender as outras referências. Você certamente percebeu que o primeiro e o segundo capítulos começam juntos, logo no início do romance. E terminam juntos no início do romance. No momento do colapso, quando o Bairro Russo está à beira do abismo. O romance começa, então, e cerca de dez linhas depois inicia-se um retorno ao passado — dois retornos e não um. Um retorno ao capítulo primeiro e um retorno ao segundo capítulo. O primeiro retorno lança luz ao que aconteceu no jardim zoológico, tendo como pano de fundo uma guerra distante. Enquanto o segundo, mostra como o Bairro Russo começou a deslizar, pouco a pouco, ao abismo. E acabam se encontrando na abertura. Quando Nonna chega da casa do pai, no final dos dois capítulos, e diz a ele que o gato de Issam voltou para casa sozinho.

SAFA JUBRAN

Sozinho… verdade, verdade.

KHALIL ALREZ

O segundo capítulo segue exatamente esse mesmo movimento: também converge para o mesmo ponto em que terminam o primeiro e o segundo capítulos.

SAFA JUBRAN

Sim…

KHALIL ALREZ

O segundo uso da partida de futebol é quando começa a cena da mãe. Quando ele está assistindo a partida com a girafa, mas também se lembra da outra partida, de quinze anos atrás, que assistiu com a mãe. Também foi um jogo da Espanha contra o Uruguai.

SAFRA JUBRAN

Eu achei que fosse a mesma partida…

KHALIL ALREZ

Não. Tem uma partida que ele assiste com a girafa, que ocorreu cinquenta anos antes, em Madri. E há outra, da Copa do Mundo da Espanha, que ocorreu quinze anos antes.

SAFA JUBRAN

Entendi…

KHALIL ALREZ

E que ele assistiu com a mãe dele. O que eu queria era sugerir ao leitor essa aproximação entre a girafa e a mãe dele. Pois, no final das contas, a girafa, para ele, representa a própria mãe. Ou se aproxima da figura dela de uma maneira ou outra. A mãe é cega, a girafa também é cega. Há pontos de contato entre as duas: a natureza de cada uma delas, mas sobretudo, o silêncio que compartilham… Foi por isso que recorri às duas partidas de futebol… O narrador acaba confundindo a mãe com a girafa. No final, instantes antes dela chegar, ele se levanta para abraçar a mãe — um abraço que nunca conseguiu lhe dar em vida. Mas ele a abraça no corpo da girafa. Esse era o propósito do uso das duas partidas de futebol…

SAFA JUBRAN

Sim, Ustadh Khalil, antes de voltarmos a falar sobre….

KHALIL ALREZ

Desculpe, quanto ao meu interesse pelo futebol…

SAFA JUBRAN

Gostaria de voltar a isso…

KHALIL ALREZ

Eu gosto muito de assistir partidas de futebol, mas gosto de saber do resultado antes de acontecer o jogo.Quer dizer, gosto de assistir o jogo um dia depois…assim me livro do peso de torcer para um dos times…

SAFA JUBRAN

De torcer… Eu ia justamente perguntar para que time o senhor torce?

KHALIL ALREZ

Na verdade… Torcer por um dos times acaba nos impedindo de apreciar a beleza de como o outro joga. Por isso, para poder assistir à partida com total liberdade — livre de qualquer torcida e qualquer envolvimento emocional prévio — assisto às partidas no dia seguinte. E pronto. Quanto à torcida em si, eu torço pelo time por motivos muito pessoais. Não porque um time joga melhor que o outro. Eu, às vezes, torço pela Suécia pelo simples fato de meu filho morar na Suécia.

SAFA JUBRAN

Claro, claro.

KHALIL ALREZ

Mas ainda assim prefiro assistir às partidas no dia seguinte. Não assisto ao vivo.

SAFA JUBRAN

Ustadh Khalil, sinceramente, gostaria de te agradecer. O senhor chamou nossa atenção para muitos aspectos que, numa primeira leitura, talvez passem despercebidos ao leitor. Mas o senhor apontou para elas de forma que ajudará todos os leitores do livro a apreciá-lo.

Algumas pessoas já começaram a ler… Também queria perguntar qual outro romance o senhor nos recomendaria. O senhor mencionou o Lenço com Morangos, e confesso que fiquei com muita vontade de lê-lo.

KHALIL ALREZ

Lenço com morangos… Eu vou te mandar uma cópia digital…

SAFA JUBRAN

Ah vou ficar muito feliz! Eu gostaria de ler o terceiro dessa série, já que o senhor considera como um conjunto. Eu, honestamente, só li esse romance seu.

KHALIL ALREZ

Na verdade, eu, pessoalmente, tenho a impressão de que meus romances não terminam. Por essa razão é que eu os reescrevo continuamente de uma forma ou de outra. 

Uma girafa insone em Damasco, eu reescrevi três vezes depois da publicação. Lenço com morangos, tem várias reescrituras. Eu vou te enviar.

SAFA JUBRAN

Obrigada.

KHALIL ALREZ

Vou enviar a versão depois da reescrita.

SAFA JUBRAN

Ah, claro. Eu posso perceber isso. Lembro-me de que quando estava traduzindo o romance, eu vivia lhe fazendo perguntas e o senhor às vezes me dizia: “Olhe, mudei algo nesse trecho. Por favor, use a nova versão”. Eu vivia anotando: o Bairro Russo, última versão; o Bairro Russo, última versão da cena…E houve uma ocasião em que o senhor me enviou um capítulo inteiro reescrito do livro.

KHALIL ALREZ

Sim, sim.

SAFA JUBRAN

Isso é muito bonito. Quer dizer que, para o senhor, um romance nunca termina?

KHALIL ALREZ

Nunca. Eu sempre sinto que posso escrever o romance novamente.

SAFA JUBRAN

De novo?

KHALIL ALREZ

Há pouco tempo, reescrevi o Lenço com morangos. Vou te enviar a nova versão. Quanto ao terceiro romance, faz muito tempo que não o releio. Vou voltar a ele, reescrever e então te envio.

SAFA JUBRAN

Isso me parece muito com o que acontece com o tradutor também… Se eu fosse traduzir o mesmo livro uma segunda vez, certamente, não faria a mesma tradução. Acho que isso é uma coisa que escritores e tradutores têm em comum. Afinal, o tradutor, como o senhor sabe, é o escritor daquele romance em outra língua. 

KHALIL ALREZ

Eu acho que o escritor — eu pessoalmente — não permaneço o mesmo. Estou sempre trabalhando, aperfeiçoando minhas ferramentas e tentando acrescentar alguma coisa, mesmo que pequena, a cada novo livro. Estou sempre mudando. Então, por que meus romances permaneceriam imóveis no mesmo lugar? Eles precisam se mover comigo. Nem sempre tenho tempo de voltar a eles e reescrevê-los de uma só vez. Mas, sempre que posso, retorno a um romance e o reescrevo. Hoje disponho de recursos e de maturidade técnica maiores do que tinha quando o escrevi, digamos, há dez anos. Voltando ao que falávamos sobre tradução, na verdade, a experiência da tradução mudou completamente minha própria escrita. Porque vejo a tradução como uma forma de adentrar a cozinha do escritor. É entrar nos bastidores do texto. Quando entro nos bastidores e na cozinha de

Anton Tchekhov, de Nabokov, ou de Ehrenburg, ou de qualquer outro deles, inevitavelmente, vou aprender coisas que jamais perceberia se me limitasse apenas à leitura. Infelizmente, não tenho mais tempo para traduzir. Considero a tradução um trabalho de suma importância. Mas ela é fundamental para qualquer escritor. Acredito que os romancistas têm que traduzir romances com os quais podem aprender.

SAFA JUBRAN

Exatamente. Ustadh Khalil, antes de começarmos nossa conversa, sabia que iria desfrutar muito dela. Só não sabia que apreciaria tanto.

KHALIL ALREZ

Obrigado.

SAFA JUBRAN

Gostaria que pudéssemos continuar conversando por mais tempo e espero, sinceramente, que permaneçamos em contato e possamos falar mais e mais e mais. Agora, em meu nome, em nome da Editora Tabla e de todos os leitores que vão ler este romance, se apaixonar pela girafa, por Nonna, pelo pássaro de Nonna e por todas essas personagens — Mustach, Raíssa e tantas outras —, personagens que caminham juntas ao longo da narrativa e que, tenho certeza, serão amadas tanto quanto eu as amei e vivi ao lado delas.

KHALIL ALREZ

Espero que sim…

SAFA JUBRAN

Quero lhe agradecer de coração. Espero, de verdade, que possamos nos encontrar pessoalmente.

KHALIL ALREZ

Eu também espero.

SAFA JUBRAN

E agora vou agradecê-lo na nossa língua: Obrigada

KHALIL ALREZ

Obrigado

SAFA JUBRAN

Ok, Ustadh Khalil, sou muito grata pelo seu tempo, por essa conversa tão rica e por tudo que aprendi com o senhor.

KHALIL ALREZ

Obrigada a você, à Laura, à editora e toda a equipe da Tabla.

SAFA JUBRAN

Chukran

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