A palavra “azeite”, que dá nome a um dos itens mais essenciais da nossa culinária, vem, assim como diversas outras palavras do português, do árabe. Ao investigarmos sua etimologia, descobrimos que a palavra remonta ao árabe andalusino (al+) záyt, que no árabe clássico é zayt, com raiz no aramaico zaytā (óleo). O diminutivo deste último, zaytūn, deu origem ao árabe clássico zaytūnah (oliva) e ao árabe andalusino (al+) zaytúna, que em português resultará em “azeitona” (Corriente et al., 2019).

A azeitona é fruto da oliveira, uma árvore nativa do litoral mediterrâneo. O nome “oliveira”, por sua vez, tem origem grega, e foram esses que primeiro a cultivaram. A árvore possui um papel fundamental na mitologia grega e romana. Ela tem, inclusive, uma importância religiosa tanto para os cristãos quanto para os judeus e muçulmanos, seja por seu óleo, por citações bíblicas e corânicas ou pela confecção de sua madeira. Em Gênesis, uma pomba branca trouxe um ramo de oliveira para Noé após o dilúvio, simbolizando a paz entre Deus e homens. Para os muçulmanos, Deus jurou pelo figo e pela azeitona.

Hoje, o maior olival do mundo fica em Portugal, que também é um dos mais importantes exportadores de azeite. Aliás, o azeite de oliva foi o primeiro produto a ser exportado por Portugal. O cultivo das oliveiras por lá é antigo e data mesmo antes do surgimento do Império Romano, durante o período em que os árabes dominaram a região ibérica e a nomearam como Al-Andalus. Na Espanha, atualmente, o turismo do azeite é amplamente explorado – nas mesmas províncias onde há 500 anos existiu um dos mais ricos reinados da história recente. A região representa 80% da produção do azeite mais consumido no mundo e as cidades de Sevilha, Córdoba e Granada recebem turistas não só para conhecer as construções e a arquitetura moura das mesquitas, mas também para visitar as principais produções de óleo de oliva. Granada, a propósito, foi a maior província produtora de azeite durante o legado dos árabes na Europa.

Não à toa, tanto o azeite quanto as oliveiras têm um valor sentimental para os árabes, sejam eles os agricultores palestinos que tiveram suas árvores derrubadas pelo exército israelense ou os primeiros muçulmanos ao lerem o Alcorão. Para o Islã, as oliveiras são a coluna do universo, símbolo da humanidade e do Profeta. Em outras interpretações, significam também a hospitalidade de Abraão e, certamente, serão encontradas no Paraíso (Namdari et al., 2016).

Em Al-Andalus, o famoso poeta Ibn Quzman já escrevia poesia dialetal – poemas chamados zejéis – nos quais o eu-lírico fazia pedidos concretos ao destinatário em troca de serviços como poeta ou escrivão. Dentre tais pedidos estavam o trigo, a farinha, o pão e o azeite. O artigo The Underside of Arabic Panegyric (1996), do arabista James T. Monroe, estuda o zejél n°84 de Ibn Quzman – considerado por muitos como inacabado – e aponta a estrutura circular do poema. Nele, o eu-lírico é um viajante, porém contra a própria vontade. Ele promete contar a audiência como foi compelido a deixar sua cidade, mas logo retira sua promessa e conta outra história: a de como uma vizinha lhe revelou que ele possuía grandes fortunas, mas que deveria deixar a cidade e buscá-las com Abu Al-‘Ala. Caso isso fosse verdade, ele se comprometeria a recompensar a vizinha com materiais como carvão, farinha, ovelhas, redes de cabelo de seda e óleo de oliva. Então, ele se prepara para deixar a cidade, esperando no dia seguinte encontrar o tropeiro que contratara para o levar até Abu Al-‘Ala. Porém, como ele conta, a miséria o enganou. A mula era fraca demais para aguentar o trajeto. O tropeiro havia prometido que ela aguentaria, mas no momento em que o eu-lírico colocou o selim no animal, ele entrou em pânico e desmontou no chão. Os comerciantes que o acompanhariam durante a viagem partiram, o deixando para trás, e assim ele foi obrigado a permanecer na cidade. As oliveiras aparecem novamente na última estrofe, quando é descrita a forma que as patas da mula ficaram emaranhadas, “com nós nas costas como oliveiras selvagens”.

A comparação da mula com a figura da oliveira não é desimportante. A oliveira é uma árvore com raízes firmemente presas ao solo e que, por lógica, não podem deixar o lugar em que nasceram. Enquanto o poeta é um miserável que precisa viajar para obter riqueza, a mula, assim como a árvore, não pode sair do lugar. Também há, aqui, um uso cômico do azeite de oliva em contraste com o primeiro verso do poema, em que o poeta garante aos leitores que, mesmo que lhes fossem dados pepinos, eles não veriam as viagens que ele vira. Pepinos, para os árabes medievais, eram usados como laxativos, enquanto o azeite de oliva induzia a constipação. O azeite seria um antídoto ao pepino. Paralelamente à comicidade da função do azeite e do pepino, James T. Monroe (1996) faz uma alusão à questão do destino, uma vez que a palavra “pepino” – no poema escrita como khiyar – poderia também ser traduzida por “escolha”. Nesta outra interpretação, mesmo que os leitores tivessem escolha, não veriam as viagens que ele viu.

Como podemos ver, o azeite e as oliveiras são elementos tradicionais da poesia árabe-andalusina, embora não se restrinjam somente a este período. Aparecem como símbolo também na poesia árabe contemporânea e frequentemente são associados à luta de resistência palestina. O escritor palestino Mahmud Darwich citava tanto as árvores quanto o azeite repetidamente em seus poemas, simbolizando diversas coisas como o território ocupado, a luta por revolução, os palestinos que nascem e morrem diariamente desde o início da ocupação, e também a amizade e a paz. Em um de seus mais famosos poemas, “Folha de oliva”, –  da coletânea Folhas da oliveira (أوراق الزيتون) de 1964 – ele diz:

“Se as oliveiras conhecessem as mãos que a plantaram, seu óleo se tornaria lágrimas.”

As oliveiras, para os palestinos, são muito mais do que apenas árvores. São parte da identidade nacional palestina. A época de colheita de azeitonas é culturalmente sagrada e o azeite é parte vital da culinária. São árvores longevas e os palestinos entendem que sua ancestralidade na região corresponde ao tempo de vida das oliveiras. Em 1974, o líder palestino da OLP, Yasser Arafat, discursou na ONU segurando em uma de suas mãos um ramo de oliveira e, na outra, uma arma: “não deixe o ramo de oliveira cair de minhas mãos”. Nessa fala, o ramo de oliveira estaria representando uma certa paz e, caso fosse derrubada, não restariam caminhos a não ser as armas.

A destruição das oliveiras faz parte da tática militar de Israel. Não vem somente dos soldados, mas principalmente dos colonos israelenses na Cisjordânia que, além de morarem em áreas ilegalmente ocupadas, destroem as árvores, prejudicando os agricultores palestinos que dependem da colheita das azeitonas para sobreviver. Soldados israelenses impedem que os fazendeiros palestinos – que são os donos das terras há gerações – tenham acesso às próprias plantações e, de acordo com o Ministério da Economia Palestino, desde 1967 Israel já destruiu mais de 800 mil oliveiras.

Para muitos agricultores, a libertação palestina está diretamente relacionada com o direito de administrar sua própria agricultura e, por isso, ela é um alvo da colonização israelense. Israel impôs monoculturas que vão contra a natureza biodiversa do solo palestino. A destruição das oliveiras é, então, uma violência simbólica, além da violência direta que é a proibição (por parte do exército) da colheita de azeitonas, uma das principais atividades econômicas da Palestina.

Assim, as oliveiras também são um elemento central na literatura palestina moderna. No poema A Segunda Oliveira – شجرة الزيتون الثانية (sem tradução para o português), de Darwich, é feita praticamente uma ode à Oliveira. Ele a descreve como uma avó, que não lamenta e não chora, mas que vive eternamente venerável nas terras palestinas, sempre modesta e sorrindo, esquecendo de seus invasores. Ela é nobre e esplêndida, ela ensina aos outros sobre paz. Ela não é verde ou espinhosa, mas quase branca. Os romanos são exaltados no poema como respeitadores da Oliveira, em contraposição aos “soldados modernos”, os invasores israelenses, que a cercam, a arrancam de sua terra e de sua linhagem. Eles a reviram, deixam suas raízes apontadas para o céu e seus galhos para o chão. Mesmo assim, ela não se lamenta e não chora. No entanto, um dos netos da Oliveira testemunha sua execução e atira uma pedra contra o soldado – numa clara referência às Intifadas –, sendo, por isso, martirizado junto de sua avó. Após a saída dos soldados, o mártir é enterrado por seus conterrâneos perto da Oliveira: eles acreditam que logo ele renascerá como oliveira também. Porém, ao contrário de sua avó, ele terá espinhas e será violentamente verde.

Na poesia espanhola recente, em uma herança dos tempos de Al-Andalus, as oliveiras também são veneradas como símbolo da eternidade e do renascimento. O poeta espanhol Antonio Casares, em seu poema Querencia del Olivo (Amor da Azeitona, 1998), expressa seu desejo de viver eternamente como uma oliveira embaixo do céu azul da Andaluzia:

Yo quisiera estar siempre como tú, viejo olivo, 

enhiesto bajo el cielo azul de Andalucía, 

como un dios que se siente eternamente vivo, 

heraldo de una tierra que anuncia la alegría.

Durante a Guerra Civil Espanhola, muitas oliveiras foram abandonadas e resistiram a condições climáticas desfavoráveis à espera do retorno de seus donos, também se tornando um símbolo de resistência na poesia da Espanha moderna. No poema Aceituneros (A Colheita da Azeitona, 1937), de Miguel Hernández, é feita uma declamação aos agricultores de azeitona de Jaén, Andaluzia, para que eles não se deixassem escravizar e tomassem posse de suas oliveiras, pois eles eram de fato seus donos. O poema foi escrito num período turbulento de desigualdade social na Espanha, em que os agricultores eram explorados por pessoas da classe alta. O poema é oficialmente hino da província de Jaén e, semelhantemente ao que passam os agricultores palestinos desde 1947, os espanhóis da década de 30 também enxergavam nas oliveiras um símbolo de resistência contra seus opressores.

A longevidade, imortalidade e firmeza das oliveiras é uma referência tanto para Ibn Quzman, em seu zejél inacabado, quanto para os palestinos, que veneram as oliveiras como uma prova de sua ancestralidade no território. Também é um elemento-chave na poesia espanhola, pela sua grandiosidade e representação de resistência. Mais uma vez lembramos da interpretação do poema de Ibn Quzman e da ideia de destino e predestinação a permanecer fixo em um lugar. Percebemos que as oliveiras, na poesia árabe, também significam permanência à terra, uma permanência que resiste a invasões e carrega a ideia de pertencimento a uma nação.

Logo, não me abstenho de dizer: talvez o maior legado de Al-Andalus não seja sua arquitetura ou os rastros que o árabe deixou no português e espanhol. Talvez o maior legado de centenas de anos de domínio árabe na Península Ibérica esteja até mesmo numa prateleira de supermercado, numa garrafa de azeite, que veio da azeitona, fruto de uma oliveira.

Bibliografia

ABABNEH, Mohammed. Olive Symbolism in Palestinian and Spanish Poetry: A comparative study. International Journal of Linguistics, Literature and Translation, [s. l.], v. 6, ed. 4, p. 55-65, 8 abr. 2023. DOI 10.32996/ijllt. Disponível em: www.al-kindipublisher.com/index.php/ijllt. Acesso em: 19 dez. 2023

CORRIENTE, Federico; PEREIRA, Christophe; VICENTE, Ángeles. Dictionnaire des emprunts ibéro-romans. Berlin/Boston: De Gruyter, 2019.  

MONROE, James. The Underside of Arabic Panegyrics: Ibn Quzman (Unfinished?) Zajal No.84. Al-Qantara, California, v. 17, ed. 1, 1996.

NAMDARI, Ebrahim et al. Olive, The symbol of Resistance in Contemporary Arabic poetry. INTERNATIONAL JOURNAL OF HUMANITIES AND CULTURAL STUDIES, [s. l.], v. 1, 2016. Disponível em: http://www.ijhcs.com/index.php/ijhcs/index. Acesso em: 19 dez. 2023.MALVIKA, Sharma. The Children of the Olive Branches. Disponível em: <https://thewire.in/world/the-children-of-the-olive-branches>. Acesso em: 20 dez. 2023.

Samira Al-Sanabani

Samira Al-Sanabani é estudante de letras português/alemão na Universidade de São Paulo. Brasileira, de origem iemenita e italiana, é interessada em geopolítica e em aprender novos idiomas.

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