Leia na íntegra a orelha do livro A família que devorou seus homens, de Dima Wannus

Damasco, Beirute, Istambul, Paris, Londres… as localidades citadas no livro… a trajetória conhecida da diáspora, o mapa do deslocamento, da perda, da busca, da inadequação. Um retrato-documentário em algum momento ao final dessa jornada (será final mesmo?)… uma tentativa de restaurar lugar, memória, terra, pertencimento, identidade, afetos. O livro é tudo isso.

Com o pretexto de fazer um documentário com a mãe, a narradora/autora decide comprar uma câmera para compartilhar o peso das histórias, para mergulhar com ela nas memórias da mãe e ter também um olho voltado para si, como confessa a certa altura do livro: “documentar o reflexo da história nos meus olhos, seus passos no meu rosto, nas rugas que, uma por uma, abriam caminho nele”. A partir daí, da inauguração desse artifício, a autora nos transforma, a nós, leitores, nesse olho, nessa testemunha de vidas fragmentadas e imensas.

Numa escrita caleidoscópica, Dima Wannus nos apresenta às mulheres da família e a suas histórias, num vai e vem temporal e genealógico. Em pouco tempo somos parte dessa família que devorou seus homens — personagens que vamos conhecendo pela memória dessas mulheres. Com uma escrita elegante e descrições precisas, a autora percorre conosco as páginas de um álbum de família que se estende por gerações, em tempos e lugares diversos. Essa narrativa íntima é permeada por referências políticas e questões sociais, uma trama que, sem nenhuma pretensão histórica, nos permite vislumbrar algo da Síria e da diáspora de seus filhos e filhas.

Um aspecto interessante e que vale a pena ressaltar é o senso de humor da autora, que ilumina as marcas mais sombrias de nossas lembranças na Síria. Essas marcas que sempre evitamos encarar, seja pela sua beleza, sua exuberância e nossa admiração por ela, seja por toda a sua feiura, que nos causa tanta repulsa.

A tradução para o português do original em árabe é de Safa Jubran, que, como a narradora, vive na diáspora e nos traz, com honestidade, sensibilidade e uma linguagem extremamente ágil, toda a gama de sensações que o romance provoca.

A família que devorou seus homens é uma obra da literatura do exílio, fina como o papel que causa os cortes mais doloridos.

Texto de Yara Osman

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Dima Wannus nasceu na Síria, na cidade de Damasco, em 1982. Estudou literatura francesa e tradução na Universidade de Damasco e na Sorbonne. Escreveu para jornais árabes, como o Alsafir e o Alhayat, e estrangeiros, como o Washington Post. Dirigiu a seção cultural da revista digital Modon entre 2012 e 2014. Em 2009 foi selecionada entre os 39 escritores árabes mais talentosos com menos de 40 anos pelo projeto Beirute39. Tem três romances e uma coletânea de contos publicados.

Safa Jubran nasceu em Marjeyoun, no Líbano, em 1962 e chegou ao Brasil em 1982. É professora livre-docente na Universidade de São Paulo, onde leciona língua e literatura árabes, desde 1992. Em 2019, recebeu, pelo conjunto da obra traduzida, o Sheikh Hamad Award for Translation and International Understanding. É a tradutora de A família que devorou seus homens.

Yara Osman

Yara Osman é fotógrafa, pianista e formada em odontologia. Nascida na cidade de Latáquia, Síria, chegou ao Brasil como refugiada em 2016. Ministrou palestras e debates sobre refúgio, feminismo, diversidade e sexualidade nos SESC's de São Paulo. Também tocou em vários projetos musicais como: projeto Tananir; Sarau vozes femininas; banda Gurbah; e no grupo "Um sonho", de música persa. Participou na exposição “Gurbah” na Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba junto com os artistas Silvana Macedo e Adel Alloush. Seu trabalho mais recente foi a exposição virtual “Longe de Casa”, na plataforma do Armazém (Coletivo Elza), no evento Mulher Artista Resiste.

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