(Prefácio escrito pela professora e pesquisadora Flávia Paniz para o livro O harém político.)
O harém político: o Profeta e as mulheres tornou-se uma obra clássica dos estudos de gênero, política e religião no Marrocos e demais países que vivem em contextos islâmicos. Tal sucesso deve-se ao fato de ela ter nascido de uma situação aparentemente trivial que ilustra como as estruturas de poder atravessam a vida cotidiana. Ao ouvir uma provocação de um homem em uma mercearia em Rabat, capital do Marrocos, sobre a possibilidade de uma mulher governar os muçulmanos, Fatima Mernissi escutou a recitação automática de um famoso hadith: “Nunca conhecerá a prosperidade o povo que confiar seus negócios a uma mulher”. Esse episódio, relatado logo na introdução, mostra como a palavra sagrada pode ser mobilizada em contextos ordinários para interditar os direitos das mulheres.
Os hadiths são documentos em que são registradas minuciosas descrições do que o Profeta teria feito ou dito. Seu conjunto, em consonância com o Alcorão, tornou-se a fonte das leis, uma referência e um padrão para distinguir o verdadeiro do falso, o permitido do proibido, a ética e os valores, afirma a autora. A força do hadith citado acima não estava apenas no conteúdo, mas no modo como se tornara naturalizado, incontestável, usado como argumento definitivo a respeito das relações de poder na política. A partir daí, Mernissi transformou sua experiência de infância vivida em um harém em objeto de pesquisa sociológica e histórica, revelando a potência política das narrativas religiosas.
O livro estrutura-se como uma investigação rigorosa e, ao mesmo tempo, como um gesto de insubmissão intelectual. Diante da frase ouvida na mercearia, a autora não se resigna: decide buscar as origens do hadith, verificar o que é autêntico (sahih), reconstituir o contexto em que teria sido proferido, ler explicações do Alcorão (tafsir), recorrer à compreensão dos métodos de tradições do fiqh (ciência religiosa) e examinar os interesses de quem o transmitiu. Essa postura é revolucionária porque questiona a tradição não para negá-la, mas para examiná-la criticamente, desnaturalizando suas certezas, como é o caso da luta histórica das mulheres muçulmanas para confrontar políticas de exclusão que se apoiam nas interpretações dos textos sagrados para legitimá-las, unindo o passado dos tempos do Profeta às políticas contemporâneas do tempo presente. Duvidar, nesse caso, não seria irreverência, mas um compromisso com a verdade histórica e a origem das desigualdades.
“Que Deus nos proteja das catástrofes do tempo”, disse um cliente na cena da mercearia, que marca o início desta obra. Para Mernissi, os muçulmanos sofrem com o tempo presente, o tempo em que as propostas e práticas da comunidade, antes voltadas para as vontades de Deus, foram submetidas à individualidade no contexto da formação dos Estados muçulmanos. Com a independência em relação à França e à Espanha em 1956, o Marrocos conquistou sua autonomia moderna e aderiu a concepções de Estado europeias, elaboradas em 1648, no Tratado de Vestfália, tornando-se signatário de convenções internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigida em 1948 e que reconhece os indivíduos como cidadãos dotados de direitos iguais.
Segundo Mernissi, “era preciso, depois da independência, que o Estado teatralizasse seu renascimento”. O Estado muçulmano foi obrigado a se redefinir para atender às demandas das organizações internacionais e, assim, redefinir também suas concepções de cidadão, invariavelmente projetando a ideia de igualdade entre todos os sujeitos. O tempo se torna categoria fundamental para a compreensão a respeito da inscrição e das tentativas de apagamento das mulheres na história. A autora elabora os usos do tempo como categorias ocidentais de medição, como se ele fosse um termômetro de desenvolvimento, de produção, de racionalidade e de projeção de espaços que marcam o presente e o futuro. No caso das comunidades muçulmanas, o tempo é a categoria que explica as relações entre democracia, cidadania e colonialismo.
Se, por um lado, a nova cidadania promoveu o fim da hierarquia entre gêneros e fomentou o sufrágio e a participação das mulheres na política, de outro, a masculinidade identificada pela tradicional hierarquia entre homens e mulheres havia sido, em tese, abolida — nas palavras de Fatima Mernissi, “a hierarquia de identidade que organizava o político e as relações entre os gêneros”. Em um sistema como no Islã, no qual muçulmanos eram submetidos “à vontade do grupo”, a individualidade torna-se uma iniciativa de inovação (bid‘a) e constitui-se como um erro aos olhos das comunidades tradicionais marroquinas.
O acesso das mulheres no presente a espaços considerados tradicionalmente como de domínio do homem e privilégio da masculinidade, como a escola e o local de trabalho, a vida pública e a política, torna-se um símbolo de questionamento e de recusa do passado. De acordo com suas palavras, essa composição desorganiza as relações, de modo que convém aos homens reivindicar um meio de restaurar as coisas por meio da evocação do passado.
Mernissi revela que, mesmo com o direito constitucional de concorrer a cargos políticos, as mulheres não tiveram uma representação significativa nas estatísticas das eleições no país no ano de 1987, quando este livro foi publicado. Em vez de incorrer numa ideia ocidental de atraso no espaço-tempo, entendida por ela como forma de controle colonial contemporâneo ao ditar as regras de como as demais sociedades devem viver suas democracias, a socióloga decidiu mergulhar nas profundezas do passado, tal qual seu interlocutor na mercearia, para compreender os fundamentos daquilo que reverberou nos discursos sobre o tempo presente. Com isso, ela passou a se dedicar aos estudos aprofundados e qualificados sobre os textos sagrados.
O harém político propõe, assim, uma releitura da história islâmica a partir de uma chave feminista e pós-colonial. Feminista porque denuncia a manipulação da memória para excluir as mulheres da esfera pública; pós-colonial porque mostra como a relação com o passado, do Protetorado até a formação do Estado muçulmano, tornou-se um campo de disputa nas sociedades muçulmanas contemporâneas. A força do livro está em revelar que a misoginia não é intrínseca ao Islã, mas resultado de escolhas políticas que transformaram determinados hadiths em armas de exclusão. Ao mostrar que esses ditos foram contestados desde sua origem e que essa autenticidade é muitas vezes frágil, Mernissi devolve à pessoa leitora muçulmana a possibilidade de imaginar uma tradição diferente, menos autoritária e mais igualitária.
O caráter inovador do livro também reside na articulação entre narrativa pessoal e análise científica. Ao começar pela cena da mercearia, Mernissi inscreve sua própria voz e experiência de mulher marroquina no texto. Esse gesto rompe com a pretensa neutralidade da ciência e reivindica uma sociologia situada, encarnada, que reconhece a dimensão subjetiva do conhecimento, pontuando a relevância da posicionalidade. Ao mesmo tempo, a autora não renuncia ao rigor metodológico: percorre textos clássicos, reconstrói cadeias de transmissão, examina contextos políticos e mobiliza autores como o filósofo Mohammed Abed al-Jabri (1935-2010) para pensar a razão árabe. Essa combinação dá à obra sua força singular: é ao mesmo tempo pessoal e erudita, política e acadêmica, acessível e profundamente crítica.
O harém político gerou intensos debates no mundo árabe e fora dele. Para alguns, tratava-se de uma leitura ousada demais, quase herética, por questionar a legitimidade de hadiths reconhecidos. Para outros, era um alento, uma prova de que era possível reabrir os arquivos da memória islâmica sem cair em fundamentalismos nem em reducionismos orientalistas. No Ocidente, o livro foi rapidamente traduzido e passou a integrar o repertório dos estudos feministas, sendo lido ao lado de autoras como Lila Abu-Lughod, Saba Mahmood e Chandra Mohanty. No entanto, Mernissi sempre alertou contra a apropriação simplista de sua obra: seu objetivo não era fornecer argumentos para estigmatizar o Islã, mas oferecer ferramentas para sua transformação interna.
Assim, O harém político é mais do que um estudo sobre hadiths: é uma intervenção intelectual e política. Ele mostra como a memória pode ser ferramenta de censura, mas também de libertação. Revela ainda que a religião não é um corpo fixo de doutrinas, mas um campo de disputas no qual o gênero desempenha papel central. E, sobretudo, convida os leitores — muçulmanos e não muçulmanos, homens e mulheres — a pensar o passado não como prisão, mas como horizonte aberto.
Antes de continuar a falar do livro, porém, é preciso apresentar Fatima Mernissi. Essa notável socióloga marroquina ficou conhecida por suas reflexões em torno dos textos sagrados corânicos e da elaboração de debates sobre os direitos das mulheres no Islã, pontuando as relações entre Estado, religiosidade, colonialismo e gênero. Suas reflexões sobre as disputas políticas que envolvem a relação entre democracia, leituras dos textos sagrados e apontamentos contemporâneos trouxeram à pensadora reconhecimento internacional por sua contribuição à sociologia, aos estudos de gênero, à historiografia, à epistemologia islâmica e à teoria pós-colonial.
Nascida em Fez, no Marrocos, em 1940, ainda sob o regime do Protetorado francês, Mernissi abordou sua infância e juventude na autobiografia em Sonhos de transgressão: minha vida de menina num harém. Essa obra fala das suas origens, mostrando como suas vivências foram decisivas para moldar sua sensibilidade crítica e despertar seu interesse em compreender como as fronteiras visíveis e invisíveis, e as dinâmicas daquilo que é considerado público e privado nas experiências do passado e no tempo do Profeta, regulavam a vida das mulheres. Sua experiência de reclusão tornou-se ponto de partida para uma trajetória intelectual que buscou incessantemente desmontar os mecanismos sociais e simbólicos que sustentam a exclusão feminina.
Formada em sociologia, Mernissi estudou em Rabat, Paris e, posteriormente, nos Estados Unidos, onde concluiu seu doutorado na Brandeis University, em 1974. Sua formação internacional lhe permitiu articular uma leitura crítica tanto das tradições árabes quanto das interpretações ocidentais sobre o Islã e as mulheres muçulmanas, situando-a em um entrelugar. Essa dupla posição — simultaneamente enraizada em sua realidade marroquina e aberta ao diálogo global — deu singularidade à sua obra, categorizada, no geral, no campo de estudos dos feminismos islâmicos. Ao mesmo tempo que confrontava as leituras e interpretações sexistas dos textos islâmicos, ela também desafiava os estereótipos orientalistas que representavam mulheres muçulmanas como vítimas. Para ela, as releituras dos textos sagrados podem ser uma chave para compreender a força das mulheres que buscam liberdade dentro da própria comunidade, ao expor e advogar por seus direitos por meio de questionamentos sobre interpretações dos sentidos dos atos e falas do Profeta. Ela faleceu aos 75 anos, em 2015, em Rabat.
Sua carreira acadêmica foi marcada pelo compromisso em vincular pesquisa sociológica e engajamento político. Mernissi atuou como professora na Universidade Mohammed v, em Rabat, onde também fundou centros de pesquisa voltados para estudos de gênero e para o diálogo intercultural. Ali, formou gerações de pesquisadoras e pesquisadores, além de construir um espaço de debate crítico em uma sociedade em transformação. Sua sociologia partia da vida cotidiana, da observação dos papéis sociais, da escuta das vozes femininas e da investigação dos métodos que conferiam veracidade aos hadiths, colocando em destaque a agência das mulheres marroquinas, suas estratégias de resistência e sua capacidade de reconfigurar fronteiras, principalmente a partir das figuras de Aicha, Umm Salma e Sakina.
Traduzidas para diversos idiomas, suas obras tornaram-se referência para os feminismos islâmicos, feminismos fora do centro e feminismos no campo dos pós-colonialismo, especialmente aqueles do Sul Global. Ao mobilizar uma epistemologia islâmica, própria da sociologia marroquina para a compreensão de fenômenos sociais e políticos do passado, da história e da política, Mernissi pontua as limitações em torno da compreensão de suas particularidades, que teorias modernas euro-americanas não seriam capazes de abranger. Sua obra desafia o feminismo ocidental, chamando atenção para o risco de universalizar categorias sem considerar as especificidades históricas, políticas e culturais, ao mesmo tempo que coloca em xeque os problemas de igualdade social e igualdade de gênero na sociedade marroquina.
Mernissi integrou uma geração de intelectuais marroquinos que buscaram repensar as condições coloniais da modernidade árabe sem abdicar do senso dos valores conferidos historicamente. O diálogo com Al-Jabri foi fundamental: foi por influência dele que a pensadora deu destaque à questão do tempo, da memória e da razão árabes, temas que atravessam O harém político. Segundo a autora, os homens perceberam que só poderiam gerir o presente com autoridade impondo o que é considerado ancestral; o que vem do passado seria uma referência sagrada. Mernissi voltou-se com intensidade para a reflexão de que a liberdade das mulheres estava condicionada às interpretações e representações históricas dos textos sagrados feitas por homens, que moldavam suas reflexões a partir do que lhes era mais conveniente, revelando como essa escrita potencializa a censura. Ao mesmo tempo, ela mostra como
gênero, poder e igualdade se entrelaçam na constituição da democracia, da política e da concepção de um Estado muçulmano.
O harém político, lançado originalmente em 1987, portanto depois de Beyond the Veil: Male-Female Dynamics in Modern Muslim Society (1975) e antes de Sultanas esquecidas: mulheres chefes de Estado no Islã — publicado originalmente em 1990 em francês e, no Brasil, em 2024, pela editora Tabla, também com tradução de Marília Scalzo —, é uma obra que revela como foram constituídas as elaborações sobre os atos e as falas do profeta Muhammad. O livro indica que a interpretação dos textos sagrados é a chave para compreender as transformações das relações de poder: ela parte das ligações de parentesco nas sociedades chamadas de tribais para chegar a uma ideia de cidadania, na qual qualquer membro do povo muçulmano se torna parte da comunidade, que está interligada pela fé.
A arquitetura de O harém político revela a maneira como Mernissi concebia a pesquisa sociológica: como uma investigação que não teme se perder em detalhes históricos, mas que organiza esses detalhes em torno de uma narrativa clara, quase pedagógica, destinada a provocar reflexão crítica. O livro se divide em duas grandes partes, antecedidas por uma introdução que é, por si só, um manifesto metodológico e político.
Na introdução, Mernissi narra a cena fundadora da investigação: a mercearia em Rabat, o hadith citado com naturalidade e a necessidade de verificar sua origem. Essa cena inaugura uma escrita híbrida, em que a experiência pessoal se torna porta de entrada para questões de alcance global. O leitor percebe de imediato que não se trata apenas de uma pesquisa erudita, mas de uma tomada de posição diante da vida cotidiana e das estruturas de poder que nela se manifestam. Essa escolha narrativa é central para desvelar as engrenagens da exclusão.
A primeira parte, intitulada “O texto sagrado como arma política”, examina os processos de produção, transmissão e autenticação dos hadiths. Aqui, Mernissi mergulha na história da tradição islâmica para mostrar como a morte do Profeta Muhammad, em 632, abriu espaço para disputas intensas em torno da sucessão e da autoridade. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras coleções de hadiths, registrando não apenas os feitos e falas do Profeta, mas também as interpretações e os interesses de diferentes grupos políticos. A autora dedica capítulos a investigar hadiths misóginos específicos, como o de Abu Bakra, analisando a credibilidade de seus transmissores e o contexto em que foram narrados. Ela mostra como a história da ciência religiosa islâmica é também a história de uma disputa pela autoridade, em que a memória é constantemente selecionada e reorganizada. Essa parte do livro é, portanto, um mergulho nos fundamentos da tradição islâmica, conduzido com um olhar crítico atento ao gênero e ao poder.
A segunda parte, “Medina em revolução: os três anos fatídicos”, reconstrói o período em que Muhammad se estabeleceu em Medina e fundou a primeira comunidade muçulmana. Mernissi mostra como a cidade se transformou em laboratório político, social e religioso, no qual as normas estavam sendo constantemente reveladas e negociadas. As mulheres, especialmente as esposas do Profeta, desempenharam papel ativo nesse processo, participando de debates, transmitindo hadiths e até mesmo intervindo em disputas políticas. Ao recuperar esse protagonismo feminino, a autora desnaturaliza a exclusão posterior, mostrando que o Islã nascente foi muito mais aberto e igualitário do que a tradição patriarcal posterior quis admitir. As mulheres do Profeta teriam vivido um “tempo feliz”, no qual a proximidade com Muhammad lhes garantia autoridade e prestígio. A posterior segregação não era inevitável, mas foi fruto de escolhas políticas.
Essa segunda parte também aborda episódios cruciais, como a imposição do hijab, o debate sobre a escravização de pessoas, as guerras civis (fitna) e a batalha do Camelo, em que Aicha, esposa do Profeta, assumiu protagonismo militar e foi, em período posterior, simbolicamente responsabilizada pela divisão entre sunitas e xiitas. Cada um desses episódios é analisado não apenas como fato histórico, mas como momento de constituição de discursos sobre o gênero, o poder e a comunidade. Mernissi mostra que o Islã inicial estava longe de ser homogêneo: era um campo de disputas intensas, no qual diferentes projetos de sociedade se enfrentavam. Recuperar essa pluralidade histórica é um modo de abrir espaço para alternativas no presente.
Por fim, o livro encerra com uma conclusão que não é apenas um resumo, mas uma denúncia e um convite. Denúncia porque mostra como, ao longo dos séculos, a memória foi manipulada para excluir as mulheres e legitimar regimes autoritários. Convite porque incita o leitor a duvidar, a investigar e a não aceitar passivamente as tradições. Esta é a ambição maior do livro: reabrir os arquivos da tradição islâmica para possibilitar novas leituras, mais igualitárias e democráticas.
A estrutura de O harém político não é apenas organizacional: ela traduz uma estratégia intelectual. Ao dividir o texto entre a análise dos hadiths e a reconstrução da experiência de Medina, Mernissi mostra como o religioso e o político, o texto e a prática, a memória e a vida cotidiana se entrelaçam. Essa arquitetura reforça a ideia de que não existe uma linha divisória nítida entre o sagrado e o profano, mas sim uma disputa permanente em que as mulheres foram ora protagonistas, ora silenciadas. O livro nos convida, assim, a entrar nesse campo de tensões não como espectadores distantes, mas como sujeitos envolvidos na tarefa de pensar o passado e o futuro.
Um dos méritos mais notáveis de O harém político é a capacidade de articular categorias conceituais sofisticadas com exemplos históricos concretos. Em vez de separar a teoria da análise empírica, Mernissi mostra que é na prática de ler os textos, de investigar suas condições de produção e de confrontá-los com a experiência vivida que se constroem conceitos críticos. Nesse sentido, quatro eixos atravessam o livro e lhe conferem densidade analítica: o tempo, a memória, o poder e o gênero.
O primeiro desses eixos é o tempo. Inspirando-se nos trabalhos de Al-Jabri sobre a formação da razão árabe, Mernissi afirma que o “mal do presente” é um dos maiores dilemas das sociedades muçulmanas contemporâneas. O passado, sacralizado como depósito da verdade, converte-se em obstáculo para a imaginação democrática. Esse movimento não é apenas nostálgico; é uma estratégia política. Governantes e imãs compreendem que podem gerir o presente apenas impondo a autoridade dos ancestrais como referência sagrada. O tempo torna-se mecanismo de dominação, assim como o fazem as sociedades modernas ocidentais, impondo uma relação com o tempo presente marcada pela orientação ao futuro.
Essa reflexão leva à formulação daquilo que Mernissi chama de “cronopolítica”. Se, durante o colonialismo clássico, o espaço foi o principal campo de controle — ocupação de territórios, demarcação de fronteiras, imposição de novas geografias —, no mundo contemporâneo é o tempo que assume essa função. O Ocidente industrializado e globalizado impõe ritmos de produção, aceleração tecnológica e padrões de velocidade que obrigam outras sociedades a se alinharem. Segundo ela, o novo imperialismo é uma maneira de contar, calcular e avaliar, que desloca o presente para o futuro, obrigando-nos a aceitar seu desafio. A dominação não se dá apenas por armas ou exércitos, mas pela universalização de um regime temporal que mede desenvolvimento, atraso e civilização. O relógio e o calendário tornam-se, dessa forma, instrumentos de poder, assim como nas obras de Benedict Anderson, publicadas posteriormente. A partir dessas interlocuções, o tempo se tornaria uma categoria difundida e estudada com particularidade, como é o caso do conceito de “cronotopos”, criado por Mikhail Bakhtin e os ensaios da obra Que horas são? (1987), de Roberto Schwarz.
Ao lado do tempo, a memória aparece como outra dimensão crucial. Para Mernissi, a memória é um campo de disputa política. A forma como os hadiths foram transmitidos e selecionados mostra que a memória coletiva é sempre produto de escolhas. Determinados episódios são lembrados, outros esquecidos; determinadas vozes são amplificadas, outras silenciadas. Essa seleção não é neutra: está a serviço da legitimação de autoridades e da exclusão de sujeitos. Quando um hadith misógino atravessa séculos e chega ao presente como palavra incontestável, não é porque seja verdadeiro em si, mas porque foi reiteradamente incorporado e reforçado como parte da tradição. No livro, ela mostra como a política e a religião colaboram de forma tão estreita que acabam por confundir a razão com a própria censura. Essa afirmação sintetiza como a memória pode se tornar um dispositivo de controle.
O terceiro eixo é o poder, entendido aqui não apenas como exercício de dominação política, mas como capacidade de organizar o tempo e a memória. O poder se exerce ao definir quais passados devem ser preservados, quais interpretações são legítimas e quais práticas são consideradas aceitáveis. É por isso que a investigação de Mernissi sobre os hadiths não é apenas filológica, mas política: ao mostrar que certos transmissores não eram idôneos, que determinados ditos surgiram em contextos de guerra civil e que outros foram forjados para legitimar derrotas, ela revela que o poder opera no coração da tradição. O sagrado, nesse sentido, não paira acima da história, mas é constantemente modelado por disputas de autoridade.
Por fim, o gênero constitui o eixo em torno do qual os demais se articulam. O tempo, a memória e o poder convergem na forma como as mulheres são representadas e posicionadas. Excluir as mulheres da política não foi apenas uma decisão de diversos homens, mas uma maneira de estabilizar hierarquias e identidades em momentos de crise. Velar as mulheres significava também velar a própria comunidade, proteger uma ordem ameaçada. Do mesmo modo, lembrar Aicha como causadora de divisão e não como líder militar foi uma forma de advertência simbólica contra a participação das mulheres. O corpo e a voz das mulheres tornaram-se, assim, terrenos privilegiados da luta política.
Esses quatro eixos — tempo, memória, poder e gênero — não aparecem isolados, mas entrelaçados. Ao problematizá-los, Mernissi constrói uma teoria social do Islã que vai além da descrição histórica, oferecendo uma nova linguagem e uma nova epistemologia para pensarmos os problemas da atualidade.