Rifqa, de Mohammed El-Kurd, é um texto resolutamente queer. No entanto, para perceber a intensidade da queeritude da obra seminal do autor palestino, um breve panorama conceitual se impõe. A palavra “queer” circula bem além da esfera anglófona — seu domínio linguístico de origem — já há algumas décadas. Sua transposição transfronteiriça, por mais que bem-sucedida, não foi sem metamorfoses semânticas que lhe conferiram novos sentidos enquanto lhe tolheram outros. Com efeito, seu sentido popular atual em contextos não anglófonos, a exemplo do Brasil, parece transitar entre, de um lado, uma designação abrangente a todo o espectro de minorias sexuais e de gênero, como um equivalente mais curto e conveniente à extensa sigla LGBTQIAPN+, e, do outro lado, apenas mais uma identidade, ainda que mais “anárquica”, entre as outras que compõem a sigla.
No entanto, é necessário retornar às origens da palavra “queer” para compreender sua real potência e a razão pela qual esse monossílabo foi alçado à categoria de grade de análise teórica a partir dos anos 1980. “Queer” faz parte daquelas palavras decididamente germânicas que a língua inglesa reserva ao seu registro mais cru, sua etimologia sendo compartilhada com a palavra alemã quer — “diagonal” — e, ultimamente, com o português “torto”. Queer é, assim, aquilo que não é straight, e durante séculos portou apenas o sentido de “estranho”, até que a dimensão sexual viesse se impor a partir do final do século XIX, sob a forma de um insulto.
É justamente aí que a palavra se perde na transposição translinguística. A carga simbólica da reapropriação de um insulto dissipa-se completamente no processo, assim como sua acepção primária. Ora, aquilo que é torto somente o pode ser em relação ao que é considerado reto. E é essa a grande distinção entre o queer e categorias de identidade sexual ou de gênero como gay ou trans: o primeiro salienta o caráter relacional da marginalização (o queer está marginal em relação à norma vigente num contexto específico), enquanto as últimas querem-se inerentes (os sujeitos nascem gays, lésbicas, bissexuais, trans etc.).
Tal distinção é precisamente a razão pela qual a palavra “queer” transformou-se em teoria. Teresa de Lauretis, que cunhou o termo “teoria queer”, ressaltou essa distinção afirmando que o pensamento queer necessariamente questiona e desafia as normas, ao contrário dos estudos gays e lésbicos. Já Eve Sedgwick, pioneira da teoria queer nas áreas da linguagem e da literatura, famosamente definiu “queer” como “a malha aberta de possibilidades, lacunas, sobreposições, dissonâncias e ressonâncias, lapsos e excessos de significado […]”.
E é justamente nesses lapsos e excessos que reside a queeritude de Rifqa. Certo, há claras alusões à diversidade sexual e de gênero per se, notadamente à instrumentalização de pautas relativas a minorias sexuais e de gênero pelo Estado de Israel a fim de clamar uma pretensa superioridade civilizacional que justificaria o colonialismo sionista — estratégia retórica conhecida como pinkwashing. É o tema do poema “Máquinas de guerra vestidas feito drag queens (p.53): Máquinas de guerra usam batom, portam bolsas adornadas e saúdam/táboamona?/Dançam vogue nos detritos/torneiras cor-de-rosa. Ademais, o pinkwashing também aparece em “Matemática” (p. 52): O sangue não se lava/não obstante as torneiras/não obstante a cor da lavagem.
Já em “Meninas num campo de refugiados” (p.25), acompanhamos uma jovem palestina trans num campo de refugiados, de sua designação de gênero ao nascer: tua família anuncia/tua varonia/e tua ruína, às suas estratégias de sobrevivência tanto em relação à ocupação colonial quanto à hostilidade de sua própria sociedade: Tua língua gera gêneros/conforme o necessário/em barbearias e burocracias. As ansiedades relativas ao acesso ao tratamento médico e ao reconhecimento jurídico também são abordadas:esperando o rebrotar do ritmo/o afirmar das cirurgias/o golpe dos malhetes/em prol da tua verdade.
Tais alusões mais explícitas a sexualidades e expressões de gênero marginalizadas não são, de forma alguma, os limites da dimensão queer de Rifqa. É preciso ler nas entrelinhas e na visão social e política subjacente à obra. Se o que define a política queer, parafraseando Judith Butler, é uma política de alianças através das diferenças, de alianças entre corpos marginais, El-Kurd é então um claro adepto dessa política.
A título de exemplo, no poema “Três mulheres” (p. 57), o autor joga um olhar queer sobre o parto — ato sobre o qual o regime de controle de corpos vigente exerce extrema gerência, declarando-o seu território incontestado. As três mulheres parturientes — uma em Atlanta, outra em Jerusalém e a última em Gaza — são corpos queer expelindo proles queer, indesejadas pelo mundo que as cerca. A justaposição das três ilustra o luto e a luta partilhados.
A marginalização material e econômica também ocupa um espaço central tanto na política queer quanto na poesia de El-Kurd, como em “Menino vende chiclete em Qalandiyah” e “Bancos de praça com dentes”. Simultaneamente, encontramos a recusa do identitarismo neoliberal estadunidense em “Antibiografia” (p. 85): Acho identidade uma coisa cafona, tema que define o pensamento queer desde seu início. De fato, a oposição ao assimilacionismo e ao apelo à “respeitabilidade” é o motor principal da política queer, elemento onipresente no pensamento político do autor em seu ensaio político Vítimas perfeitas. Rifqa contém abundantes prenúncios ao pensamento desenvolvido em Vítimas perfeitas, inclusive à recusa da respeitabilidade, como no posfácio: “Há uma crença ingênua de que os palestinos só vão ganhar credibilidade quando forem vistos como respeitáveis.” (p.114)
É por todas essas razões que Rifqa é um texto resolutamente queer. E não teria como não o ser. Dina Georgis afirma que o termo queer “registra o desejo socialmente repudiado” e que “reações violentas à ocupação e ao imperialismo por masculinidades racializadas são as figuras abjetas do nosso tempo e, portanto […] queer. Podemos nos perguntar se existe, nos tempos de hoje, algo mais queer que a pulsão de vida de um jovem palestino que escreve poesia; algum desejo mais abjeto e socialmente repudiado que o desejo palestino por liberdade.