Em português, a palavra “deserto” pode parecer suficiente para designar uma paisagem árida, pouco habitada e marcada pela escassez de água. Em árabe, porém, encontramos uma variedade de palavras para falar desse universo: algumas evocam sua extensão e aridez; outras, a ausência de abrigo, a exposição ou a experiência de quem o atravessa.

Ao traduzir A pedra que sangra, do escritor líbio Ibrahim Al-Koni, comecei a prestar atenção a essa diversidade: como traduzir “deserto” quando o próprio original emprega palavras diferentes para nomear e caracterizar esse espaço?

A consulta ao A Dictionary of Modern Written Arabic, de Hans Wehr, e ao Arabic-English Lexicon, de Edward William Lane, mostrou que essas palavras já carregam diferentes possibilidades de sentido. A literatura pode justamente explorar e ampliar essas possibilidades.

Essas palavras não correspondem a paisagens perfeitamente delimitadas, e seus sentidos muitas vezes se sobrepõem. Mas, lidas em seus contextos, elas nos convidam a olhar para o deserto não como um espaço uniforme, e sim como uma paisagem de diferentes experiências.

A paisagem aberta: البرّ, البرّيّة, الخلاء e العراء

Nesse grupo de palavras, o conceito mais amplo é o de برّ barr: terra firme; campo aberto; extensão de terra, em oposição ao mar. Da mesma raiz, برّيّة barriyya se aproxima mais do espaço selvagem, da estepe, do deserto em si.

Aí chegamos a dois vocábulos amplamente usados em Al-Koni: خلاء khalāʾ e عراء ʿarāʾ. Em A Dictionary of Modern Written Arabic, Hans Wehr registra para خلاء khalāʾ sentidos como “espaço vazio” e “campo aberto”. Edward Lane, em seu Arabic-English Lexicon (uma obra lexicográfica histórica, que vai além de um dicionário, com definições extensas e citações de usos clássicos), também parte da ideia de um lugar vazio, sem nada, observando seu emprego para extensões abertas de campo ou deserto. Já عراء  ʿarāʾ aparece em Wehr como “espaço aberto” ou “campo aberto”; Lane acrescenta a ideia de um espaço amplo onde não há nada que esconda ou oculte, nem onde alguém possa se esconder. No contraste que se forma entre essas duas palavras, خلاء khalāʾ chama atenção para o vazio, enquanto عراء ʿarāʾ chama atenção para a exposição.

Em Al-Koni, essa diferença pode ser percebida nos contextos em que cada termo aparece. No exemplo a seguir, خلاء khalāʾ aparece ao lado de برّيّة barriyya:

والخالق أكثر ميلاً إلى الحلول في المخلوق المتوغّل في البرّيّة، المقطوع في الخلاء، المبتعد حتّى عن الحيوانات التي تستأنس الناس ولا تختار منفى البرّيّة.

O Criador é mais inclinado a habitar a criatura que adentra a estepe (برّيّة), apartada no ermo (خلاء), afastada até mesmo dos animais que convivem com o homem e que não escolheriam esse exílio.

Nesse trecho, “estepe” e “ermo” não aparecem como definições universais de برّيّة barriyya e خلاء khalāʾ, mas como escolhas que funcionam no contexto. Veja como a mesma palavra, خلاء khalāʾ, também aparece no livro ao lado de صحراء ṣaḥrāʾ (palavra mais comum para “deserto”):

كلّ شيءٍ يهجر الصحراء مع اقتراب الصيف، فيبقى الخلاء يعاند السراب والسكون وأشعّة الشمس.

Tudo abandona o deserto (صحراء) com a proximidade do verão, ficando ali o ermo (خلاء) que enfrenta a miragem, a quietude e os raios do sol.

Aqui, صحراء ṣaḥrāʾ eخلاء  khalāʾ aparecem na mesma passagem, mas produzem efeitos diferentes. O primeiro nomeia a paisagem; o segundo enfatiza aquilo que resta quando ela se esvazia.

Já عراء ʿarāʾ ganha diferentes traduções ao longo do romance de Al-Koni, dependendo da ocorrência:

  •  العراء الفسيح → “a vastidão” 
  •  في العراء → “ao relento” 
  •  وثبت إلى العراء → “saltou para fora, para o descampado” 

Uma palavra não precisa ser traduzida sempre da mesma forma em outra língua para que sua tradução seja consistente. A consistência pode estar na preservação da função que ela exerce em cada contexto. A definição de Lane, que descreve عراء ʿarāʾ como um espaço amplo em que nada esconde ou encobre, ajuda a entender por que o termo assume traduções tão diferentes em português conforme o contexto.

O deserto como espaço de travessia: مفازة , فلاة متاهة , e فيفاء

Outros vocábulos enfatizam menos o vazio ou a exposição e mais a natureza da própria região: sua aridez, extensão e dificuldade de atravessá-la. O deserto não é definido apenas pela paisagem, mas também pela experiência de travessia por ele.

O termo مفازة mafāza em Wehr aparece como, simplesmente, “deserto”. Já Lane explica que se trata de um deserto sem água, cuja extensão corresponde a pelo menos uma jornada de viagem. Em Al-Koni, temos:

هنا يبدأ بحر الرمل العظيم، الرافد الأبديّ للمتاهات المجهولة. في هذه المفازة تختفي المخلوقات الفارّة من مجازر الخلق.

Aqui começa o grandioso mar de areia, o eterno afluente dos labirintos (متاهات) desconhecidos. Neste deserto inóspito (مفازة) se escondem as criaturas que fogem das carnificinas das pessoas.

A tradução, mais uma vez, foi contextual: “deserto inóspito” procura destacar a natureza hostil do espaço descrito na passagem.

E assim chegamos a outro termo, فلاة falāt, que em Al-Koni aparece só neste trecho:

فوجد أن الودان العظيم قد طار به عبر أمواج بحر الرملة، ودخل فلاة أخرى يغمره السراب، وتتدفّق على كثبانها أشعة الشمس..

Viu então que o grandioso muflão voara com ele sobre as ondas do mar de areia e entrara em outro planalto desértico (فلاة), coberto de miragens e de dunas banhadas pelos raios do sol.

“Planalto desértico” não é uma tradução dicionarizada de فلاة falāt. Wehr registra “deserto sem água”, “campo aberto” e “espaço aberto”, enquanto Lane também fala em um “deserto sem água” e acrescenta a ideia de um “deserto amplo”. A escolha de “planalto desértico” nasceu, portanto, do contexto: naquele trecho, a palavra designa uma nova extensão da paisagem, caracterizada por miragens e dunas, e, como será descrito na sequência, os personagens irão adentrar o deserto montanhoso. Nesse caso, o contexto de uso foi mais determinante para a escolha do que qualquer dos equivalentes oferecidos pelos dicionários.

Já فيفاء fayfāʾ é definida por Wehr como, simplesmente (e de novo!), “deserto” e, por Lane, como um deserto sem água, plano e amplo. No romance, porém, o termo aparece no plural, فيافي fayāfī, como uma das palavras que constroem a ideia de vastidão:

ماذا ستفعل العجوز بنفسها في هذه الفيافي؟ ستموت عطشًا أو جوعًا أو تفترسها الذئاب.

O que a velha faria sozinha naquelas vastidões (فيافي)? Morreria de sede, de fome ou devorada por lobos.

Mas o deserto não é apenas um espaço que se atravessa: ele também pode ser um espaço em que se perde o caminho. Na mesma passagem em que aparece مفازة mafāza, Al-Koni também fala de المتاهات المجهولة, os “labirintos desconhecidos”. O vocábulo متاهة matāha, segundo Wehr significa “labirinto” e também designa uma região desolada e sem caminhos definidos. No romance, ele também aparece no plural, متاهات matāhāt. O termo تيه tīh, da mesma raiz semântica, embora não apareça no romance, ajuda a ampliar essa ideia: Wehr também o registra como “deserto”, “região selvagem sem caminhos” e “labirinto”, enquanto Lane o relaciona a مفازة mafāza, definindo-o como um deserto sem água no qual se perde o caminho, sem sinais ou marcas que permitam orientar-se.

Assim, a noção de deserto pode incorporar não apenas a aridez ou a extensão, mas também a perda de referências espaciais: é uma paisagem em que não há sinais que orientem o viajante e na qual a própria vastidão pode se transformar em desorientação.

É justamente essa dimensão que aparece quando o autor transforma o espaço desértico em متاهات matāhāt, “labirintos”:

اسود وجه الشمس، وغابت ضفتا الوادي في المتاهات الأبدية.

A face do sol escureceu e as margens do uádi se esvaneceram nos labirintos eternos (المتاهات الأبدية).

في متاهة العراء تتناثر أشجار سدر  وطلح  ورتم (…)

Nos labirintos da vastidão (متاهة العراء), espalhavam‑se árvores de sidr, acácia e retama (…)

Em Al-Koni, a vastidão também pode se tornar labirinto.

E o “deserto” propriamente dito: الصحراء

E a palavra que, no uso moderno, é a mais imediatamente reconhecível como “deserto”, صحراء ṣaḥrāʾ?  Wehr define como “deserto”, “estepe”, e é dessa palavra que vem o nome próprio الصحراء الكبرى, o Saara — literalmente, “o grande deserto”. O nome Saara/Sahara também vem do árabe ṣaḥrāʾ.

Já no Arabic-English Lexicon, Lane oferece uma descrição mais específica: uma extensão de terra plana ou relativamente nivelada, sem vegetação e sem montanhas ou colinas. Em A pedra que sangra, entretanto, encontramos também الصحراء الجبلية, literalmente “o deserto montanhoso”. O uso de Al-Koni mostra que ṣaḥrāʾ na literatura árabe moderna não precisa estar limitado a esse tipo de relevo plano.

في قديم الزمان كانت الصحراء الجبلية في حرب ٍ أبدية ٍ مع الصحراء الرملية.

Em tempos antigos, o deserto montanhoso (الصحراء الجبلية) estava em guerra perpétua com o deserto arenoso (الصحراء الرملية).

O contraste é um lembrete de que dicionários registram usos em determinados momentos da história da língua. Eles não são fotografias eternas do significado das palavras. E o próprio Saara, na realidade, está longe de ser uma paisagem uniformemente plana.

Quando a paisagem ganha voz

A pergunta “como se diz deserto em árabe?” tem uma resposta menos simples do que parece. Pode-se dizer صحراء, é claro. Mas também há palavras que destacam a falta de água, a vastidão, a ausência de abrigo, o espaço aberto ou até a dificuldade de encontrar o caminho.

Foi traduzindo A pedra que sangra que comecei a perceber essa multiplicidade. No universo de Al-Koni, o deserto está longe de ser um cenário neutro: é uma paisagem que participa da narrativa e parece ganhar vontade própria. Isso aparece, por exemplo, na expressão عجرفة الشمس, “a arrogância do sol”, que transforma o calor intenso em algo mais do que uma condição do ambiente: o sol é apresentado como uma presença que impõe sua força.

A imagem do sol arrogante ajuda a perceber que, na literatura, a paisagem não é apenas descrita; ela também é interpretada, sentida e transformada pela linguagem. As diferentes palavras para o deserto não formam um catálogo de paisagens isoladas, mas abrem diferentes perspectivas sobre um mesmo mundo.

Fontes

  • AL-KONI, Ibrahim. Nazīf al-ḥajar. 4. ed. Túnis: Dar Rashm li-l-Nashr wa-l-Tawzīʿ, 2023.
  • AL-KONI, Ibrahim. A pedra que sangra. Tradução de Beatriz Negreiros Gemignani. São Paulo: Editora Tabla, 2026.
  • LANE, Edward William. Arabic-English Lexicon. 8 vol. Londres: Williams and Norgate, 1863-1893.
  • WEHR, Hans. A Dictionary of Modern Written Arabic. Co-editor Milton Cowan. 4. ed. Wiesbaden: Otto Harrassowitz, 1979.

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