(Texto introdutório escrito pelo professor e historiador Marco Lucchesi para o livro Da taverna ao paraíso)

Hafez não é apenas um dos maiores poetas da Pérsia, mas um acontecimento dentro da sua própria língua, o persa, sobre a qual não faltam virtudes, formas elegantes e surpresas auditivas. Nela, desenhou um vetor, um percurso, um destino.

Fruto de uma admirável floração, o poeta amadurece um legado, quase sem precedentes, a partir das obras-primas de Ferdowsi, Khayyam, Nezami, Rumi e Saadi, entre outros. Obra fundadora, inspirou os maiores poetas do Oriente, não se aprisionando a uma dimensão cultural restrita, feita de mestres e doutores, sem vínculos com a cultura popular.

Sobre a sua recepção no Ocidente, bastaria citar Goethe. Ele ficou tão impressionado com o engenho e a arte de Hafez que escreveu o West-östlicher Divan (Divã ocidento-oriental), enriquecendo a língua alemã com vocábulos per sas, novas formas poéticas e ensaios caligráficos — amizade análoga à de Dante e Virgílio. Mas se em Hafez a língua poética já existia, ganhou uma nova direção morfossintática. Além disso, não raros poetas americanos, de Walt Whitman a Daniel Moore, mudaram seu estilo após a leitura de Hafez e Rumi. Vale a leitura do livro de Mehdi Aminrazavi, Sufism and American Literary Masters.

Nascido em Shiraz, Hafez viveu aproximadamente entre 1325 e 1389, sendo que a sua biografia se espelha nos próprios versos, para fugir de lendas infundadas e outros devaneios.

Quando estive em Shiraz, vi seu túmulo cercado de crianças enquanto um idoso, talvez cego, recitava de cor um sem-número de gazais. Ao sair do parque, deparei com o Fâl-e Hāfez, o livro do poeta como forma de conselho ou de futura decisão, por meio dos periquitos que pescavam pequenos papéis com seus versos, logo após a consulta do interessado.

Hafez elaborou um sistema poético que cons titui um profundo repertório semiótico e simbólico do mundo persa, que vai do Adriático ao Mar Amarelo, segundo a persiosfera de Stefano Pellò, da Bósnia à China, de Emre a Iqbal. Trata-se de uma espécie de nova língua, revisitada e rarefeita, com antigas e novas riquezas propostas por Hafez, de ordem morfossintática, sutilmente deslocadas entre si, no encalço da absoluta simplicidade.

Em Hafez, os dísticos tornaram-se mais depurados; os gazais, algo mais nítidos e esculpidos; os quartetos, mais incisivos; e as odes, cada vez mais estáveis e desprovidas de excesso.

Tamanha espécie de sublimação, de economia de meios gramaticais e de figuras poéticas adere a uma nova tessitura polifônica, verdadeira “alquimia da erudição”, como disse Gianroberto Scarcia sobre a constante mutação lexical. Assim, maah (ماه) pode ser a Lua, a beleza do rosto do Amado ou o drástico tempo da espera; kharab (خراب) corresponde à ruína ou ao estado de alma devastado; mey (می) é vinho, mas sobretudo êxtase místico, encontro com o Amado, entre outras acepções.

Embora anterior a Hafez, essa coleção de sinais, positivamente ambíguos e movediços, que se encontra, por exemplo, em Rumi, é levada agora ao status de sistema, atingindo a máxima sinergia, não limitada a certo grau de ambiguidade sufi, cuja ordem simbólica integra uma semântica reconhecível, a partir da tradição. O jogo de espelhos, em Hafez, entre significante e significado torna-se mais radical.

Hafez eleva quanto pode o território simbólico, mas sem cortar os laços da palavra com o real. Aprimora-se no exercício da ambiguidade, na condição plural do significado, em busca de um grau indefinido de saberes, que se espalham através de núcleos semânticos mais densos. Hafez procura tornar visível o invisível, na fenda que divide Céu e Terra e no silêncio que reveste outras palavras.

Essa poesia diz praticamente aquilo que não diz; insinua, convoca e desperta a potência da palavra-mundo nas delicadas bordas do inefável e na gramática viva e ardente do silêncio. E tudo com a leveza de uma pluma, nos lábios do Amado, como a bela Shirin, que é o que procura realizar o tradutor: inscrever-se no corpo da palavra, na erótica do texto em fuga, no intervalo incandescente entre os lábios de Camões e os de Hafez. Como quem trabalha entre a forma do espelho e a espessura do abismo. 

A tradução de Hafez de Nicolas Voss amplia a maturidade do sistema cultural brasileiro, capaz de dialogar poeticamente com todas as nações do mundo — inclusive com um certo Oriente, profundo, irredutível, que a editora Tabla vem ajudando a difundir.

Marco Lucchesi

Marco Lucchesi é escritor, tradutor e historiador carioca. É professor titular de Literatura Comparada na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Presidiu a Academia Brasileira de Letras de 2018 a 2021, e, desde 2023, é presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Vencedor do Prêmio Jabuti por sua tradução de poemas de Rumi, é também autor de obras como Ficções de um Gabinete Ocidental (Civilização Brasileira, 2009) e Carteiro imaterial (Ed. José Olympio, 2016).

Assine nossa Newsletter