A primeira vez que ouvi falar de Mohammed e de sua avó, Rifqa, foi quando assistimos a um documentário em Jerusalém oriental. Éramos uma delegação de militantes e artistas negros estadunidenses. Foi em janeiro de 2015. O frio chegava aos ossos. Nos amontoamos numa sala para ouvir e aprender, para sentir e nos conectar, para nos organizar politicamente. Visitamos a casa de Rifqa e Mohammed em Cheikh Jarrah, onde colonos haviam invadido a casa e impelido a família à força para a parte de trás. Nossa delegação foi testemunha e questionou o que mais poderia ser feito. “Voltem para casa e contem ao mundo o que viram aqui.” Rifqa não estava pedindo um favor; era uma ordem ensurdecedora clamando pela consciência e a responsabilização dos estadunidenses. Nosso dever era contar a história deles, amplificar suas vozes e estar presentes com o povo. Ninguém poderia ter me preparado para o que vi com meus próprios olhos e senti com meu próprio coração. Não se pode desver quando já se viu. Achava que eu fosse uma poeta radical antes, mas a Palestina arrebatou qualquer sentido de quem eu achava ser. Vi a audácia do mal e como ele pode ser racionalizado. Os palestinos não são o único povo que sofre nas mãos do colonialismo de assentamento e do terrorismo branco ocidental. Não obstante, não podemos nos permitir permanecer em silêncio quanto ao que ocorre por lá. O Estado de Israel e a justificativa de sua existência são crimes contra toda a humanidade. O Estado é o pior do espírito humano manifestado num governo plenamente funcional.

Diga a eles: “A América é a razão”.

(em “A maior frase de efeito de todos os tempos”, p. 105)

Estamos em 2021 e eu tenho a honra de escrever o prefácio do primeirolivro de poesia de Mohammed El-Kurd, Rifqa. Não preciso contar a história dele em seu lugar. Há muitos anos que ele já conta a sua própria história, que agora o mundo começa finalmente a ouvir. A cultura está mudando e vemos os resultados de anos de organização política para que essa mudança ocorra. Ainda assim, a libertação não é uma estratégia de mídia. É uma questão de vida ou morte. Como uma criança nascida no dia da Nakba, o que Mohammed tentaria ser senão uma evidência, uma sirene, uma canção de liberdade, invocando uma chave que cabe num buraco num coração do tamanho da Falastin, do rio ao mar? Mohammed é um fôlego ousado, uma benção que levanta os mortos. Com suave finesse política, estes poemas escolhem a voz. Eles adotam a vida urgente de palavras a serviço da paisagem emocional da resistência. Desestabilizando o projeto colonial baseado na mentira, Mohammed é um revelador da verdade. Ele empunha seu arsenal: uma sala de estar de poemas nos acolhe num lar do que resta, do que não pode ser fotografado ou tuitado, mas está presente no espírito de força perene, na vontade de lutar, de criar e, acima de tudo, de amar.

O que escrevo       é um quase.

    Escrevo                     um intento.

(em “Rifqa”, p. 35)

Há aquilo que as palavras podem fazer e o que está debaixo das palavras: o fogo e a fúria do que as trouxe à existência. Há o que esperamos que eles façam e há o que eles de fato fizeram. Mohammed escrevendo desde as linhas de frente da Palestina ocupada é uma ação, um fazer, um feito. Penso no quanto o amo e no quanto suas palavras me sustentaram. Louvar este livro é uma singela maneira que escolhi para demonstrar minha solidariedade. Somos formados por quem amamos e é pelo relacionamento com as pessoas que somos transformados. A solidariedade é um sentimento e um fazer. É uma série de escolhas tomadas uns com os outros. Só se pode senti-la. Não se pode inventá-la ou manipulá-la. A solidariedade não tem a ver apenas com a nossa dor ou luta comum, mas sim, e mais importante ainda, com nossa alegria, nossas visões e nossos sonhos compartilhados. É uma força energética e um amor retumbante.

Mohammed sempre quis publicar um livro com seus poemas. Aqui está um sonho que ele compartilhou comigo, e agora é o nosso sonho. Ele é um poeta e um ativista poderoso, e é também meu amigo. Continuaremos a lutar, mas somos quem amamos e por quem vivemos apesar dessa luta. A poesia nos vê como realmente somos e o que há nesse reflexo deve ser enfrentado. A poesia é um lar para os despossuídos; é nosso pertencimento. Rifqa é minha avó e é também a sua. Somos netos da sua luta, do seu amor feroz e duradouro — da sua poesia. Que estes poemas te desafiem e despertem. Que eles te façam agir. Que eles te ajudem a encontrar as palavras para o que você já sabe ser verdade. Não podemos nos dar ao luxo de ficar em silêncio. Os poemas de Mohammed nos confrontam e nos revelam.

O que dizer às crianças para quem o Mar Vermelho não se abre?

(em “Não há Moisés no cerco”, p. 48)

Mohammed nos mostra como são feitos os poetas. Um poema é uma vida e uma vida é um poema que nos convoca para dentro. O que um poema se torna em nossos espaços mais íntimos é uma terra que não pode ser possuída, embora possa ser cuidada, cultivada e amada. É uma relação que muda e se transforma com as estações, um uivo que nos conhece pelo nome e pela necessidade. Que possamos nos ver nestes poemas e proteger suas verdades. As pessoas mais livres da Terra não são controladas pelo ódio nem pelo medo, mas movidas pelo amor e pela verdade. Somos mais do que aquilo que nos foi feito; somos quem nos tornamos apesar de tudo. Quem escolhemos ser e o que faremos a respeito? Mohammed El-Kurd nos mostra um caminho. 

Eu ando pelo mundo com suas palavras tatuadas na perna direita: “Chorei — não pela casa mas pelas memórias que poderia ter criado nela”. Estas palavras me lembram que o lar é uma série de memórias compartilhadas, e não tijolo e argamassa. Lar é onde vamos lembrar e revisitar quem sempre fomos. A poesia de Mohammed El-Kurd é um lar que nos foi devolvido. Seus poemas nos chamam para casa.

Sempre,

aja monet

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