Nos últimos dois anos, o genocídio em curso perpetrado por Israel em Gaza revelou o que os palestinos e os povos colonizados vêm afirmando há décadas: o sistema internacional de direitos humanos não foi criado para pôr fim à violência colonial, mas para regulá-la. Não é por acaso que a Quarta Convenção de Genebra, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Conselho de Segurança da ONU surgiram no mesmo momento histórico da Nakba, da Partição da Índia e da institucionalização do apartheid sul-africano. O Estado israelense, criado por meio da expulsão, limpeza étnica e fragmentação do povo palestino, foi estabelecido e é normalizado por esse mesmo sistema internacional, enquanto nele acumula décadas de impunidade.
Ainda assim, há quem dispute esses espaços institucionais e tente utilizar os próprios mecanismos do direito internacional para denunciar a violência colonial. Francesca Albanese, atual relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, tornou-se um dos exemplos mais contundentes dessa atuação. Ao mobilizar instrumentos jurídicos para expor a cumplicidade de Estados no genocídio em Gaza, Albanese evidencia tanto os limites quanto as contradições de um sistema incapaz de romper com as estruturas coloniais que o fundaram.
Jurista especializada em direitos humanos e Oriente Médio, Albanese assumiu o mandato da ONU em maio de 2022. Com duas décadas de experiência em organismos internacionais, trabalhou no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e na UNRWA, agência da ONU para refugiados palestinos. É autora dos livros Palestinian Refugees in International Law (2020), J’Accuse (2024), Inside (2025) e Quando il mondo dorme (2025) além de pesquisadora afiliada ao Instituto de Estudos de Migração Internacional da Universidade de Georgetown e cofundadora da Rede Global sobre a Questão Palestina.
Seu mandato coincide com o momento em que a causa palestina, sob o peso de um genocídio televisionado, alcançou sua maior exposição internacional apesar do cerco diplomático e midiático historicamente mobilizado para blindar Israel. Em suas falas públicas e em Quando o mundo dorme, lançado no Brasil em 2026 pela Tabla, Albanese insiste em lembrar um mundo acostumado a desumanizar palestinos de que eles são pessoas cujas histórias precisam ser escutadas — e não apenas vítimas reduzidas a estatísticas.
Como relatora, assinou relatórios sobre a violação do direito à autodeterminação palestina, a privação sistemática de liberdade nos territórios ocupados e a violência contra crianças palestinas. Em março de 2024, publicou Anatomia de um genocídio, primeiro relatório formal da ONU a aplicar diretamente a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio à conduta de Israel em Gaza. O documento concluiu haver fundamentos razoáveis para afirmar que Israel estava deliberadamente destruindo o povo palestino em Gaza. Vieram depois Genocídio como apagamento colonial (2024), que insere a violência atual numa longa história de colonização e limpeza étnica; Da economia da ocupação à economia do genocídio (2025), que identifica empresas envolvidas nos lucros da ocupação e da destruição em Gaza; e Genocídio em Gaza: um crime coletivo (2025), que documenta a cumplicidade de dezenas de Estados no sustento militar, econômico e diplomático de Israel. Entre esses documentos vieram também os mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o então ministro da Defesa Yoav Gallant, medida defendida publicamente por Albanese.
Foi por essa combinação de ações que Albanese conseguiu tensionar os próprios limites do cargo. Mas é preciso reconhecer que nenhuma das denúncias formuladas por ela e outros relatores constitui novidade para os palestinos. Apartheid, limpeza étnica, genocídio, ocupação, colonização, tudo isso já havia sido nomeado, há décadas, pelos próprios palestinos. Ninguém é mais especialista na própria história e no seu cotidiano do que o povo que a vive, resiste e registra. Albanese, ao fazer valer sua posição, cumprir seu dever e mandato e aproveitar sua visibilidade, não revela uma nova verdade, mas utiliza a legitimidade institucional de seu cargo para amplificar análises e experiências historicamente marginalizadas por um sistema projetado para apagá-las.
A retaliação de quem defende a ocupação e seus crimes não tardou: em julho de 2025, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, incluiu Albanese em um regime severo de sanções, acusando-a de “antissemitismo flagrante”. Os efeitos incluíram congelamento de bens, restrições financeiras e isolamento institucional. A Universidade de Georgetown encerrou seu vínculo institucional e removeu seu nome de páginas oficiais. Em maio de 2026, porém, o juiz federal Richard Leon suspendeu as sanções, afirmando que Albanese “não fez nada além de falar” e reconhecendo violação direta à Primeira Emenda da Constituição estadunidense. O episódio evidenciou os limites de uma ordem internacional que reage com rapidez não contra o genocídio denunciado, mas contra quem ousa nomeá-lo.
Diante do custo imposto diariamente aos palestinos em Gaza, que pagam com a vida ao denunciar bombardeios, ao buscar comida ou simplesmente ao tentar sobreviver, o preço pago por Albanese permanece incomparavelmente menor. Como ela própria reconhece, sua posição como jurista europeia e funcionária da ONU lhe garantiu um grau de proteção inacessível aos palestinos submetidos diretamente à violência colonial. Mas a solidariedade internacional reside justamente nessa dimensão de absorver riscos inerentes à luta pela libertação palestina e à luta contra as injustiças. Se o direito internacional, tal como foi construído, nunca teve como objetivo libertar povos colonizados, o que Albanese faz é tensionar seus limites e recusar a linguagem da neutralidade que, diante da colonização e do genocídio, frequentemente opera como cumplicidade.
Afinal, não há “dois lados” numa ocupação colonial. O que temos são pessoas que se opõem à violência colonial e aqueles que a justificam, normalizam ou dela se beneficiam. Mesmo no contexto institucional, o “viés” frequentemente atribuído a quem denuncia a ocupação israelense não representa um abandono da objetividade, mas a consequência inevitável de qualquer compromisso real com os direitos humanos e o direito internacional. Para aqueles que, como Albanese, optam por se posicionar contra a ocupação, a colonização e seus instrumentos, a tarefa continua sendo a de exigir justiça, reparação e responsabilização. Como ela própria afirma, a Palestina é uma ferida para todos nós, e todos nós temos um papel a desempenhar na recusa à normalização de sua destruição e no combate às estruturas que sustentam os esforços contínuos para apagá-la.
Imagem: Last Night in Gaza (2021), Malak Mattar.
Badra El Cheikh
Badra El Cheikh é mestre em Comunicação pelo PPGCOM/UFF. Colabora com o Institute for Palestine Studies e atualmente coordena o Instituto Palestino de Diplomacia Pública (PIPD) no Brasil.