O título de O Livro do Desaparecimento, da autora palestina Ibtisam Azem, poderia ser grafado como “O livro do desaparecimento”. A princípio, pode não fazer nenhuma diferença deixar os substantivos em caixa alta ou baixa. No entanto, se as minúsculas fossem mantidas, um sentido muito importante do livro seria perdido na tradução para o português. 

Em árabe, o título é Sifr al-Ikhtifa (سفر الاختفاء), literalmente “o livro do desaparecimento”. Mas chama a atenção da escolha para a palavra traduzida como “livro”. O mais comum seria kitab (كِتَاب), que vem da raiz k-t-b (ك ت ب), cujo significado é “escrever”. Ou seja, o livro é fundamentalmente algo que é escrito. 

Sifr vem de outra raiz: s-f-r (ر ف س), a mesma de safar (“viagem”), cujo significado é “revelar”, “descobrir” ou “trazer à luz”. Ou seja, não é algo que foi escrito, mas sim revelado, como se quer crer de textos religiosos como o Velho e o Novo Testamentos e, claro, o Alcorão. Com relação a este último, é importante lembrar que seu nome vem da raiz ligada ao verbo “recitar”, uma vez que o Anjo Gabriel recitou suas suras para o profeta Muhammad, que as repassou oralmente para seus discípulos. 

Nessa crença, o Alcorão teria vindo diretamente de Deus. Pois como já dizia o Evangelho de João, capítulo 1, versículo 1, do Novo Testamento, “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. A revelação é feita por meio de palavras, e com elas, a Criação.

Portanto, sifr é um livro religioso, uma escritura sagrada, talvez um evangelho. Tanto que, em árabe, os nomes dos livros da Bíblia (em especial do Velho Testamento) são sifr, e não kitab. Por exemplo, o Livro do Gênese é Sifr al-Takwin; o Livro do Êxodo é Sifr al-Khuruj; o Livro de Jó é Sifr Ayub; Sifr al-Ru’ya é o Livro do Apocalipse (no Novo Testamento, os evangelhos são traduzidos de outra forma, como Injeel); e assim por diante.

Antigo Testamento

Em um diálogo do livro entre o jornalista israelense Ariel, que está investigando a causa do desaparecimento repentino dos palestinos, e seu tio Itzik, especula-se que esse sumiço possa ter ocorrido por intervenção divina. Logo em seguida, Ariel ri: “Olhe só para nós: sionistas ateus. Não acreditamos na existência de Deus, mas achamos que Ele faz milagres por nossa causa. Acreditamos que Ele nos prometeu esta terra. E agora nos livrou dos palestinos!”. 

Essa frase sintetiza bem o sionismo político e a ideologia por trás da criação de Israel, movida pelo nacionalismo secular que se baseava e se legitimava, paradoxalmente, em uma narrativa religiosa. Theodor Herzl, considerado o criador do sionismo político, era um judeu secular, assim como alguns dos fundadores do Estado de Israel, como David Ben-Gurion. A questão é que a maioria dos sionistas políticos não era formada por religiosos praticantes, sendo alguns agnósticos e mesmo ateus, como os personagens Ariel e Itzik.

Quando Ibtisam Azem escolhe Sifr al-Ikhtifa como título de seu romance, ela o coloca como mais um dos livros que compõem o Antigo Testamento judaico, tornando-o parte dessa tradição bíblica. Teria uma intervenção divina retornado os “verdadeiros” ocupantes à sua terra de origem e tirado de lá os supostos invasores (os árabes, os palestinos)? Desse ponto de vista, podemos pensar que O Livro do Desaparecimento é o tomo sionista do Antigo Testamento. 

Tempo da profecia

Se O Livro do Desaparecimento fosse escrito em caixa baixa, passaria a ideia de que é apenas uma distopia sobre como os palestinos não se encontram mais dentro da Palestina — de um dia para o outro, puf!, não estão mais lá. As maiúsculas acrescentam uma camada profética à história. Pois a distopia é real, e o desaparecimento já aconteceu — e continua acontecendo na forma do genocídio palestino. Pois o que foi a Nakba senão o próprio “desaparecimento” de milhares de palestinos de um dia para o outro? Em 1948, os palestinos tiveram que sair de suas casas, vilas e cidades de origem para fora das fronteiras criadas pelo Estado israelense. O Plano Dalet sionista teve por objetivo o extermínio de vilas palestinas inteiras. E muitos dos que ficaram foram colocados em guetos e tiveram que testemunhar suas casas sendo tomadas por outras pessoas. 

E essa história se repete em O Livro do Desaparecimento, marcado pelo tempo cíclico e pelo tempo da profecia — aliás, o romance foi originalmente publicado em 2014. O primeiro aparece na forma da Nakba contínua, enquanto o segundo adentra o tempo profético, não linear, pois a profecia sempre se realiza não no futuro, mas no passado. A profecia é sempre retroativa, pois, em geral, só é reconhecida quando já realizada. Em O Livro do Desaparecimento, o “milagre” vem atrelado a uma maldição, que é o princípio da desagregação da sociedade israelense, pois se o inimigo interno não existe mais, os israelenses começarão a se voltar uns contra os outros. E, como fica evidente, o preço a se pagar por essa “intervenção divina”, essa desagregação social, também pode ser observado na decadência atual do Estado israelense.

Paula Carvalho

Paula Carvalho é jornalista, doutora em História pela UFF e autora do livro Direito à Vagabundagem: As viagens de Isabelle Eberhardt

Assine nossa Newsletter